É curioso pensar o fenômeno da solidão, essa palavra sobre a qual gosto de pensar, não por razões muito claras. Tive essa ideia desse projeto, um projeto bastante lento, também não por razões tão claras. Claro que as razões simples são fáceis de entender: o fato de eu já ter experimentado esse fenômeno com uma intensidade importante. E que é também paradoxal, dada a história sem fim das pessoas abissalmente maravilhosas que passaram e passam pela minha vida, e talvez no fim seja para elas e sobre elas. Você lê sobre o fenômeno, olha os números, olha as mortes, olha por baixo do véu do que acontece, e se preocupa muito, mesmo sem que possa fazer algo de muito imediato. É claro que não está ao alcance de uma pessoa. Então o início apenas pode ser lento, como uma semente. Você tem a ideia, o tema, e passa a mexer com ele sobre a mesa, como um pedaço de argila sem projeto. Estica, aperta, sente a umidade. Você tem um desejo de concretude, de história clara com peripécias concretas e reais, mas parte de algo mais maleável e nebuloso, e tudo bem. É claro que tudo é experimental, e tampouco é importante, porque acho a escrita uma coisa bastante sacal às vezes, todo o seu entorno tão mascarado e ridículo, mas às vezes você é condenado a coisas e precisa fazê-las mesmo a contragosto. Eu lembro desse amigo da escola que após a despedida do colegial desapareceu, indo ir vender ração nos confins do Mato Grosso. Acho toda a coisa fascinante, muito fascinante. Penso tanto nele, nesse desaparecimento, talvez porque tão diferente de mim, eu tão sempre do passado e do que foi e do que houve e do que era. Fascinante. Talvez haja um equilíbrio na terra feito por esses dois tipos de personalidade, se é que a palavra é personalidade. Não acredito que seja. O verdadeiro horror a tudo que é sólido, definitivo, prefixado. Também um horror às viagens, às distâncias, essa ideia estúpida de homens em barcos de madeira. Que sonho seria ainda o boato da grande ilha, e para quê, ir até lá? Brincadeira, é claro que tudo é maravilhoso, e não é minha intenção, nunca foi, divagar assim como fumaça, malandramente em frases fragmentadas. Eu tenho mais é que segurar a mão, fingir que as coisas absurdas que aconteceram comigo não foram assim tantas assim. Como o trombonista de Caracas, o assalto que nos deixou com o pequeno chaveiro de Buda na mão, os abusos, mas também essas pessoas maravilhosas, a sorte, o agradecimento, essa baboseira.
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