É curioso pensar o fenômeno da solidão, essa palavra sobre a qual gosto de pensar, não por razões muito claras. Tive essa ideia desse projeto, um projeto bastante lento, também não por razões tão claras. Claro que as razões simples são fáceis de entender: o fato de eu já ter experimentado esse fenômeno com uma intensidade importante. E que é também paradoxal, dada a história sem fim das pessoas abissalmente maravilhosas que passaram e passam pela minha vida, e talvez no fim seja para elas e sobre elas. Você lê sobre o fenômeno, olha os números, olha as mortes, olha por baixo do véu do que acontece, e se preocupa muito, mesmo sem que possa fazer algo de muito imediato. É claro que não está ao alcance de uma pessoa. Então o início apenas pode ser lento, como uma semente. Você tem a ideia, o tema, e passa a mexer com ele sobre a mesa, como um pedaço de argila sem projeto. Estica, aperta, sente a umidade. Você tem um desejo de concretude, de história clara com peripécias concretas e reais, mas parte de algo mais maleável e nebuloso, e tudo bem. É claro que tudo é experimental, e tampouco é importante, porque acho a escrita uma coisa bastante sacal às vezes, todo o seu entorno tão mascarado e ridículo, mas às vezes você é condenado a coisas e precisa fazê-las mesmo a contragosto. Eu lembro desse amigo da escola que após a despedida do colegial desapareceu, indo ir vender ração nos confins do Mato Grosso. Acho toda a coisa fascinante, muito fascinante. Penso tanto nele, nesse desaparecimento, talvez porque tão diferente de mim, eu tão sempre do passado e do que foi e do que houve e do que era. Fascinante. Talvez haja um equilíbrio na terra feito por esses dois tipos de personalidade, se é que a palavra é personalidade. Não acredito que seja. O verdadeiro horror a tudo que é sólido, definitivo, prefixado. Também um horror às viagens, às distâncias, essa ideia estúpida de homens em barcos de madeira. Que sonho seria ainda o boato da grande ilha, e para quê, ir até lá? Brincadeira, é claro que tudo é maravilhoso, e não é minha intenção, nunca foi, divagar assim como fumaça, malandramente em frases fragmentadas. Eu tenho mais é que segurar a mão, fingir que as coisas absurdas que aconteceram comigo não foram assim tantas assim. Como o trombonista de Caracas, o assalto que nos deixou com o pequeno chaveiro de Buda na mão, os abusos, mas também essas pessoas maravilhosas, a sorte, o agradecimento, essa baboseira.
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A
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Jo era o seu nome. Jovem ainda, boas pernas. Quase atraente, especialmente para a vaca que o acompanhava, para quem Jo tomava o cuidado de estar sempre não tão longe de um pedaço de mato e uma torneira de água pública. Jo escolheu chamá-la apenas A Vaca, e depois acabou Ava, porque Ava gostava muito de jardins e Jo gostava muito de cinema. (A mãe de Jo também se chamava Ava, o que contribuiu também, mas a história dela fica pra mais adiante.) Quando o sol esquentava demais, e havia a sorte de terem o mato e a torneira perto de uma boa sombra — como era a de agora, uma paineira barriguda onde Jo posicionou um tijolo furado e sentou, com os joelhos no queixo —, o rapaz geralmente gostava de observar o maxilar de Ava pra cima, pra baixo e pros lados, o mastigar perpétuo, e ela o olhava de volta e havia uma grande dúvida no mormaço das cigarras — o som favorito de ambos — sobre quem dos dois achava o outro mais peculiar, pra não dizer esquisito, por causa dos meandros infinitos da evolução. Jo tinha pouco a ver com Ava, e Ava com Jo, mas naquelas refeições e hidratações eles se sabiam mutualmente úteis. Ava mastigava, enxotando as moscas que tentavam penetrar o seu dorso de chocolate. Uns espasmos de altíssima precisão. Daí fazia um qual é com a fuça, jogando o cabeção pra cima.
— Vou pensar, Ava.
Jo tinha concluído, por algum instante lá atrás quando encontrou Ava em um resto de laticínio abandonado, que ela era um bicho de sorte, já que se não fosse por Jo, Ava teria ficado com a corrente ainda sangrando a canela posterior esquerda, inteira coberta de umas lesminhas esverdeadas cheias de fome, subindo pelas tetas e fazendo um estrago tão grande que até o veterinário a quem Jo foi pedir uma opinião sobre a saúde de Ava teve que ser contido com uns razoáveis rasgões de camisa, já que o sujeito dizia ter estudado pra isso, e ele sabia que o melhor era mesmo deixar a espingarda fazer o trabalho dela, e que Jo largasse de uma vez o seu colarinho porque a dor que a Ava estava provavelmente sentindo — ele que era O Veterinário e não A Vaca — era mil vezes maior do que um sacrifício breve no meio da testa. Mas Ava fez que ainda se amarrava nas próprias tetas, e Jo mandou o veterinário à merda. Depois, descobriram no caixa de um mercadinho que o sujeito nem era veterinário, era um eletricista chegado há pouco com uma afeição maníaca pela vida de rancho.
Ava continuou manca da perna esquerda, mas a ferida fedeu, escureceu, fez casca e caiu de repente no acostamento de uma rodovia, igual uma jaca madura. Naquele dia, a Ava deu pela primeira vez um galope em frente a um açougue, mostrando o bundão independente, e construiu-se, entre ela e Jo, algo que talvez algum dia poderá ser chamado Amizade. Ou a sorte de Ava, agora, era apenas a mastigação, as caminhadas mansas, a água fresca e aquela figura magra de braços longos pra quem ficava a parte monótona das decisões práticas. Ava gostava apenas de comer, beber e se deixar levar. Quanto a Jo, ele sentiu pela primeira vez o que deveria sentir alguém que passa pela experiência quase santa de devolver a vida a outra pessoa. A sorte de Jo era a companhia de Ava. E quando os dois viram o lambe-lambe colorido d’O Ministério da Solidão, em letras de impacto amarelas e uma pintura cativante de um círculo de pessoas cirandando “vem pro Ministério você também”, Jo decidiu que o caminho até lá deveria ser feito com a Ava junto, assim meio saltimbancos. Porque mesmo no sujeito sem nenhuma fé ainda há algo que mantém o coração bombeando sangue e os pulmões fabricando oxigênio.
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Navajo
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Mutto
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Vanucci
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Bo Ling
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Jolenon, o Airoso
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Axel
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Maestrônio
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Pedregulho
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Januário
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Elvo
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Mutto

Eu não falo, eu não escuto, os meus cabelos queimam um fogo constante e vermelho o que me gerou obviamente apelidos como fiat lux, faça-se a luz, e assim fui feito, e também colocado em um circo de atrações bizarras, e apagam a luz quando eu entro. Eu imagino que os camarotes vão à loucura, tenho nem um holofote sobre mim, porque o clarão da chama é suficiente pra deixar exposto o meu corpo muito forte e esguio e elástico, que salta de bancada em bancada à base de chicotinhos. Eu sei que o que todo mundo gostaria de me perguntar é se o fogo não dói, como o couro do meu crânio resiste à tão alta temperatura, se as coisas não derretem ou vão rápido à falência, se os órgãos continuam a trabalhar bem, se os olhos mesmo continuam a ver, porque eu não sei se vocês sabem mas um olho é uma extrusão do cérebro, é um pedaço aberto, uma pequena caverninha direta aos miolos moles abaixo do osso. Isso é ciência. Perguntam qual a diferença entre andar embaixo de um sol quente ou na alta calada da noite, se preciso abaixar ao passar pelos batentes pequenos de madeira, ter atenção com bebês ou idosos, qual a distância entre a minha boca e as bochechas das pessoas, se o que eu falo é capaz de fazer atravessar o fogo para os cabelos alheios, e principalmente há alguma relação entre a combustão, essa espécie de longa chaminé de estrada, e o fato da natureza não ter me dado o componente genético da fala e da escuta, e se no fim os meus cabelos queimam porque é preciso fazer o excesso de energia sair por algum lugar, essa é a constante básica da natureza, que mantém porosa o equilíbrio das equações, porque no fim tudo é mais ou menos um mais um e só há uma resultante possível. Bem, eu não me importo com nada disso. Sim, é preciso alguns cuidados básicos. Eu não tenho muito dinheiro, então perder algum objeto ou móvel ou utensílio é sempre um prejuízo, se a coisa derrete, especialmente nos trailers e nos picadeiros baixos, porque além da minha segurança claro existe a segurança do público que é no fim quem paga as minhas contas e coloca comida no meu prato. Quero dizer, eu entendo muito bem de perspectiva. Quando você decide mudar a sua vida de uma postura de percepção para uma de perspectiva, é especialmente fácil compreender como os cabelos em chamam atraem pessoas, porque até hoje não apareceu ninguém igual, pelo menos não nesse continente ainda que eu não tenha nunca viajado muito. Meu avô, cuja cabeça ao contrário era careca e gelada, chegou a balbuciar umas vezes na cama da morte que houve uma gente em Atlântida cujos cabelos queimavam também, mas que o continente, esse procurado até hoje, foi coberto por água, então na verdade nunca saberemos, jamais saberemos, existem coisas na história que simplesmente não se sabe, nunca se saberá, e é preciso simplesmente engolir isso. É claro que não dói, porque o fogo nasceu comigo. Nos tornamos muito íntimos e amigos. Entre eu e ele há sempre uma intenção de amor e carinho. Colocar essa intenção foi pra mim como descobrir a grande chave universal da vida eterna, se não eterna da paz, da alegria e da sobrevivência. Não sorrio porque não tenho boca, mas rodopiar no meio do picadeiro em verdadeiro escuridão, enquanto da minha testa sobe um São João inteiro, que corre pelas praias do litoral durante as festas, as que reúnem pessoas ao redor da música, e sobem juntos os balões de papeis coloridos cheios de ar quente enquanto se dançam as quadrilhas e os casais se apaixonam e se amam mesmo ali pela areia esperando que nasça o sol do novo ano que é, adivinhem só, um grande fogo. Sinto-me em paz com esse elemento elementar que brotou em mim vindo de tão longe, e quanto fogo deve haver na fundura do espaço que igual a Atlântida nunca, nunca saberemos. Eu nasci, cresci e morrerei no circo. Esse é o meu espaço possível. Os pneus murchos, os vira latinhas, os pernilongos, o barro dos dias de chuva, que aliás obviamente sempre também é uma pergunta E essa cabeleira, apaga em dia de chuva? Não, não apaga. Vocês imaginam uns desses flares de sobrevivência, que as pessoas acendem embaixo do temporal das praias em busca de socorro, e me digam se aquele fogo não se perpetua na ponta do braço esticado, até claro que acabe o seu combustível. Os navios passam pendurados no varal do horizonte, cheios de cassinos e álcoois, e os socorros passam porque, convenhamos, não é trabalho ou dever de ninguém salvar ninguém. Penso o que eu falaria se tivesse boca, o que eu escutaria se tivesse ouvidos, e eu acho que eu ouviria primeiro o crepitar do fogo, é claro, porque a única coisa que falta é o seu ruído, os pequenos estalos de madeira, o cheiro do eucalipto, o pipocar das pinhas, e acho que provavelmente eu pediria primeiro um brinde ao ruído do fogo, um plimplim na beira da taça pra homenagear essa criação tão maravilhosa e quente e vital que todos os dias eu desejo agradecer, e nunca há tristeza, jamais há, mesmo. Minto, claro que há, mas não me importa. Eu poderia dizer que minhas lágrimas são fagulhas e o meu berreiro é um indiano em um espaço confinado soldando o metal com uma bomba relógio de oxigênio nas costas, que minhas lágrimas são descartáveis como ele, mas a verdade é que elas são iguais a todas as outras, de água salgada. Trabalhei com estaleiros, fiz cargueiros e navios de suporte à plataformas, tudo antes do circo, e tenho lembrança do acidente que matou dez deles. Eu não falo, eu não escuto, os meus cabelos queimam um fogo constante e vermelho.
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Vanucci

Ali pelos altos de Santa Tereza onde a mudez é proibida, o Calábria Carioca servia as massas às massas que há muitos anos haviam visto o litoral brasileiro pela primeira vez, a muralha verdejante dos hinos, os coqueiros cheios de pássaros ainda sem nome, vindos da Bota e de suas cercanias, em que havia beliches, a xepa e as alegrias e dores dos conveses. E claro vinha também o vinho, os ébrios, os que não souberam novamente fazer dinheiro, e que largaram o novo mundo pelas ruas, no porto, nos trabalhos que encurtam a vida. O pequeno Vanucci vira o pai nos botequins das barcaças de Niterói, e cresceu por ali vendo a mãe agachada junto ao vaso, a cinta rodopiando junto aos lustres, e muito canto e gritos ali onde a mudez era proibida. Quis logo ser mágico, vestir-se de preto e branco. Foi a alguns jogos do Botafogo, chegou a ter um retrato de alguns palmos do Dinamite. Conseguiu ser garçom, no Calábria. O pai lhe deixou um velho alaúde. A mãe lhe deixou a força das ressurreições. Muitos anos entrando e saindo de uma pensão ao pé do morro que possuía um piano deram três qualidades, três raízes em Vanucci: a música, a magia e o servir. Ia-se ao Calábria pra ver o Vanucci. Quem vivia nos calores das calçadas, no forno de janeiro, nas pequenas negociatas por detrás dos mostruários de roupas, os jogos de caixinha e caixeta em busca de otários, não havia jeito senão tornar-se um pouco mágico, ser bom com as mãos, com olhos, e pros almoços e jantares do Calábria era tudo isso. Velhos, adultos e crianças nos polpetones, azeitoninhas, o pão da casa, o portifólio de massas que somente uma velha lá atrás do casarão sabia, a velha que mais ou menos adotara o Vanucci mas também todos os outros, contanto que lhe apalpassem os peitos de vez em quando no meio da madrugada. Entrava-se no Calábria vindo das derrotas, de uma manhã mal sucedida, o dinheiro perdido nos cavalos e no mercado de lanchas, as mulheres muito mal satisfeitas excitadas pelas mão do Vanucci, que servia o vinho, tinha um sorriso, e cantarolava baixinho uma barcarola nos pés dos ouvidos, e toda a mesa era molhada de sugo e gargalhadas.
— Faz voar, Vanucci!
Hahaha! ria o Vanucci. Fazia-se de tímido, negava, ainda não era hora. Faz voar, Vanucci! Mas como é possível minha gente, não é coisa que se faz todos os dias, requer energia, concentração, ainda vão me mandar embora. O próprio dono do estabelecimento, rindo pela ânsia do ouro, o guacamole, berrava mais alto Faz voar, Vanucci! E o que se via no Calábria era coisa que nunca se acreditava nos postos, nunca se tinha certeza exatamente sobre o limiar das coisas, e diziam Já viu o Vanucci em ação? Eu já vi, Um tio meu viu, uma prima comeu o Vanucci atrás do casarão, enquanto apalpava os seios de uma velha que apareceu assim do nada. Faz voar!
Vanucci sentava ao piano no meio do salão e puxava as canções de pequeno. Pedia um Lá maior, Lá maior! E imediatamente o garrafão de vinho verde entubava um Lááá, com a boquinha entreaberta e risonha, acompanhado por dois xotezinhos de Dreher que pareciam meio perdidos por ali ainda da cantoria passada. Um Sol! E o Martini rodopiava como Fred Astaire na lua nova prateada, sacudindo a azeitoninha que desafinada lhe pisava sempre os bicos dos sapatos. Margaritas, rums, sodas, bourbons, negronis, limonadas suíças, sucos de todas as frutas, melancia, abacaxi, abacate, com ou sem leite, os refrigerantes do interior bem adocicados, ipas, pilsens, malbecs, sauvignons, e vinha mesmo a própria Miranda dançar nos dentes do Vanucci, lembrando a portuguesinha com quem Vanucci namorara adolescente pelo Téjo e que lhe amassara o ventre por todos os lados. Agora o Coro! cantava Vanucci, e olhava pras prateleiras do ladrilho ao teto, que ocupava todo o atrás do balcão. O coro! Van, Van, Van, Van, como a quinta sinfonia, primeiro os baixos, os barris gordos de pescoço largo, depois os tenores, os licores finos, então as contraltos, as pingas de alambique ali de Minas Gerais ou Parati, por fim a frequência aguda que ouvia-se quase lá pelas barcas das lindas sopranos vindas da França, carésimas, especiais, trazidas por entre a proteção da serragem, e que soltavam gritinhos de Van, Van, Van, Van, arrematando o compasso.
A alegria ao redor era imensa e Vanucci quase sentia-se na terra que nunca pisara. Da pequena abertura da cozinha, o único emputecido era o holandês da copa que pensava por dentro adivinha pra quem vai sobrar lavar toda essa baderna. E gritava Cala a boca Vanucci! Cala a boca Holandês, gritavam as massas, que saíam do balcão quente todas excitadas, tagliatelles, ragus, rigattonis, trofies ao pesto, lasanhas, brodettos, tiramisus, tortellinis, caponatas, querendo ser imediatamente devoradas, mastigadas, e então dormidas no quilo das tardes, no entretelas do trabalho matando o tempo, na graminha da boca, na espera das seis, mas pelo menos comemos que foi uma maravilha ali no Calábria, como sempre o Vanucci deu o show de sempre, e hoje parecia até mais entusiasmado do que nunca. Talvez porque fosse aniversário em algum lugar, alguma data importante que somente ele sabia, a data da alegria, da chegada, ou porque ele sabia que justamente a mudez era proibida e Vanucci era garçom, mágico e maestro, três sujeitos das regras e dos métodos sérios. E que também no Atlântico existem as ondas, e quando você se aproxima é inevitável vir sendo mexido pelo balanço do mar, os picos o os vales daquela frequência salgada que entra pelo coração dos que a desejam.
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Mutto
Desenhei o Mutto em completo silêncio, o vídeo é só o lo-fizinho de fundo. Respeitei esse silêncio, ao invés de ficar enchendo linguiça com alguma cascata. Como eu já tinha dito uns atrás, o espírito do dia influencia o desenho do dia, então a personagem, claro. Em dos capítulos Johnstone faz um panorama histórico das máscaras, no mitologia das culturas. Há sempre essa postura de respeitar a máscara quase como viva por ela mesma, e claro necessita um pouco de fé e jogo pra comprar essa ideia. Não me interesso muito por teorizar em cima disso, mas a questão de respeitar que Mutto é silencioso achei válido. Tive uns meses atrás o prazer de experimentar no palco o trabalho de máscaras e foi muito bom, com a turma do encena. Ainda que eu tenha um pouco de preguiça com a sensibidade demais, e mais vontade de escrachar, é um trabalho muito bom pro corpo e expressão. Uma boa introdução ao palco, porque não existe quase timidez sem o rosto exposto. Lembro da frase do Nelson Rodrigues, que só acreditava em quem ainda enrubescia. Achava bonito, e meio que concordo. Isso me incomoda um pouco, na busca pela tranquilidade independente de expressão, na segurança de não ficar nervoso ou ansioso diante do público, o que as pessoas testemunham da sua arte: dá impressão que passa por alcançar um ‘o que os outros pensam não me atinge ou não me faz diferença’. Em um endurescimento de uma cara de pau que eu entendo válida, e talvez necessária, mas que pra mim é muito difícil. Acho que isso em geral queima o filme da arte, onde a maioria parece meio blasé. Mas esse bláse parece um pouco essa conquista de armadura, então até que sou compreensivo. Parece difícil conseguir as duas coisas, a proteção da sua criação e ao mesmo tempo manter-se poroso e aberto às pessoas ao redor. Por certo é um jogo delicado.
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Vanucci
Vanucci maestro, garçom e mágico. Seu nome apareceu através do Fernando Vanucci, o da Copa, o da Itália. Ele comeu uma bolacha ao vivo, não é, o que talvez tenha colaborado com o seu desemprego. Comer e se medicar é algo que não se deve fazer ao vivo. É um personagem rico, muito detalhado, muita vida e coisas acontecendo ao seu redor, ao contrário de Mutto, que posto logo mais, nascido inteiro em silêncio, no estranhamento de alguém creepy, talvez transformado em atração circense. Vanucci foi o oitavo personagem, Mutto o nono. Faltam os textos de ambos, daí mais um desenho e um texto. Então 1 mês pra terminar um ensaio sobre essa maluquice toda, banca e fim e todos os próximos projetos e planos seguintes, e a excitação é grande, ainda que ansiosa. Tinha umas coisas pra escrever mas esqueci. Penso no que fiz e acho que não consigo encaixar a parte da escrita em algo mais clássico, não são nem continhos. O que mais parece ser, a palavra que parece encaixar melhor, é que são quase ‘espíritos’ de personagem, sensações, rascunhos de outras histórias futuras que talvez nem existam. Gosto da ideia de que eles sejam só espíritos, que não tenham fim nem nada, ainda que um ou outro talvez no futuro aconteça. Como a voz me interessa, decidi também que vou declamar alto os textos, talvez gravar o áudio, não sei se com vídeo. O que escrevi funciona com vinte vezes mais potência se declamado, acho que por causa da escrita que é fluida, livre e associativa. É mais impactante do que se só somente lida. É estranho lembrar do que eu fui até esse grande bloqueio. As obsessões com a gramática, ritmo, estrutura, tudo meio que por água abaixo. Eu precisava desse outro oposto. Das rasuras, dos erros, da bagunça, das imperfeições. Vejo um terceiro movimento muito claro depois disso, que será provavelmente encontrar o caminho do meio. A gente confia e segue.
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Bo Ling

Bo Ling apreciava as lâmpadas frias e brancas da pista de boliche, a pista número nove que levava o seu nome quase na bandeja de aperitivos, uma gordura sempre, um álcool, especialmente a calabresa bem tostada no limão e cebolas, e cerveja claro e sempre, do barril bem gelado que era todo cuidado por um senhor chinês, o gerente do Bowling Bowl Rice and Beer. Apesar de sobrenome de Bo parecer chinês, Bo não tinha nenhum parentesco com a gerência. Era um laço de afeto. Era um sujeito pesado, o Bo. Muito articulado contudo, não na voz mas nos braços, na articulação dos cotovelos e dos ombros, que são basicamente as únicas coisas que você precisa pra arremessar mais ou menos a bola em direção aos pinos, especialmente quando você não liga pra mais nada e nenhum campeonato, porque Bo Ling era contra tudo e todos. Ele não era um profissional. Bo havia desde sempre sido um amador. A profissão de amador, muito adequada ao silêncio, aos planejamentos sem vínculos no computador, e a ausência das testemunhas de carne e osso que trazem o espírito e as emoções, ambas mortas todas as noites junto com os spares e eventualmente os strikes das noites mais afiadas. Bo e sua avó, uma senhora magérrima cuja avó tinha nascido pra perto de Marrakech, ambos viviam em situação de mutualismo. Bo acordava, comia e dormia no segundo andar do sobrado da avó, e em contrapartida Bo trazia do mercadinho a comida da avó, que era rala e pobre, e Bo lhe dava banhos todos os dias, e beijava a face da avó que lhe dizia Pequeno Bo, o que eu faria sem você, meu amor. O dinheiro era curto, todo gasto em equipamentos e hardwares e atualizações de softwares, monitores gigantescos e ar-condicionado, além claro da mensalidade do Bowling Bowl, as calabresas, o barril, as gorjetas, a reserva da número nove sem ranhuras ou depressões, as tríades sagradas daquela vida que era má em sua essência. Má?
Entre o sobrado da avó e a pista de boliche havia uns oitocentos metros, o mercadinho no meio, então nos dias que não eram de inverno Bo olhava o Sol, deixava o quente molhar a pele bem branca, não pensava coisas demais, ainda que fosse uma sensação agradável. Bo olhava os cachorros velhos dos terrenos baldios, que vinham em sua direção muito alegres, a mão de Bo sempre com um resto de gordura que os bichos lambiam, um resto de osso. Parecia haver naqueles poucos minutos do dia uma linha direta entre Bo e aquele astro gigantesco solar que era uma bola de fogo espacial, e imaginar essa linha com milhões e milhões de quilômetros avançando sobre o éter, e aquele rosto branco sentindo um último prazer, e os oitocentos metros que separavam, agora duzentos, Bo da cadeira de fibra vermelha por onde saíam as bolas de boliche que ele segurava, ela fria e pesada e morta.
Haviam jogado tinta no sobrado inteiro, e havia pixações que, por sorte, a pobre avó não reparava, já cega e meio mumificada. O chinês, por sorte, não entendia as leis do país. Sua religião era o trabalho e o bebê, a comida do bebê, e o Western Union, a mulher, a mãe, o pai, a família. Bo jogava boliche sempre sozinho, então de certa forma nunca ganhava ou perdia. Bo se acostumava à vida morna. Se deixava levar, já muito em paz com a morte. Já muito desistido, já muito irrelevante, já com a paz dos odiados e dos esquecidos. A dor, do tamanho do sol, também era há muito tempo morta. O grande corpo, em sua sabedoria, se anestesiava, se adaptava. Os cachorrinhos lambiam suas mãos, e ele comia a gordura das calabresas bebendo a cerveja como um limpa-trilhos, esperando que se entupisse logo algo e enfim a paz, e a paz da avó principalmente, quem ele ainda não havia tido coragem de sufocar. O chinês dizia Cliente bom, cliente fiel, naquele clichês dos que imigraram há pouco, e parecia haver entre os dois uma estranha amizade. Bo olhava o bebê do chinês, que ficava na mão de uma moça bem nova, que ele conhecia da rua debaixo, com quem ele tinha crescido junto, e tinha jogado aquele taco de rua, ainda que por certo ela jamais se lembrasse de algo assim, naquele ser que era a sombra da pista, muito sem graça e júbilo.
O inverno chegava, e as espumas e vapores subiam, a cidade ficava cinza, e Bo vinha ao boliche com o suéter da avó, de lã colorida e quente, que Bo vestia imaginando uma armadura de correntes medievais, o cheiro do ferro, a assadura das axilas. Se via mesmo diante dos grandes castelos, educado com a coragem dos pequenos príncipes, tomando dos sultões marroquinos o direito do território, sob o azeite quente, a violência dos aríetes, e a saudade de um tempo onde o sangue era honesto e bom, e as armas eram gloriosas e quase vivas. A pele fria de Bo, saudosa em essência, absorvia o inverno, aquela atmosfera elegante e distante que pra ele era tão íntima em sonhos. A bola de boliche brilhava como fogo em sua mão, e Bo corria pela pista com um alazão no meio das pernas, castrado dos prazeres, esmagando os povos no meio dos cascos, e espada no alto decepando cabeças, e havia sim algo em seu peito que não morria, mas crescia, crescia e crescia, como mesmo um grande astro novo pronto a engolir todo o redor.
A avó morreu no verão seguinte, Bo também. O chinês teve outro bebê com a moça nova. O dinheiro do Western Union parou de chegar. Esposa, mãe, pai, do outro lado da terra que continuou a girar, mudaram-se para um apartamento pra lá do rio que era uma pequena gaveta quase.
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Bo Ling
Bo Ling foi feito com má vontade em um dia de má vontade, e seu sentido desanimado trouxe o paradoxo de um tema que é talvez o tema que mais esmaga toda minha existência, o tema da solidão. Lembrei imediatamente (lembrei não é a melhor palavra), pensei mesmo, porque ela anda comigo há um tempo, a Jo Cox, do parlamento britânico, assassinada por um cara que de certa forma era o próprio objeto por quem Jo lutava, ou fruto dele. Bo Ling me parece um incel, mora com a avó, de quem recebeu um suéter tricotado. Ele passa seus dias na pista de boliche, talvez um pouco de Walter Sobchak sem comédia. O seu desenho fálico diz algo, a pele azulada como morta e fria, a bola de fogo o próprio Sol nas mãos que pode ser tantas coisas, tantos desejos ou vontades mortas. Antes de eu entrar por essa experiência de personagens espontâneas, eu tinha um mural gigantesco em que eu minuciara a solidão, e a ideia de novela era em volta disso, um pouco cômica mas com lastro dramático. Os papeis da Jo Cox, tudo pelo qual era lutara, as iniciativas pelo combate à solidão que lá e imagino que logo por todos os cás possui ordem quase epidêmica. E as pessoas morrem, o coração apodrece, especialmente a velhice, e eu não consigo muito pensar em um velho solitário sem vir as lágrimas, e as pessoas na rua. Lembro de ouvir Maria, Maria do Milton e sentir uma coisa na garganta muito ruim. Que diz muito bem sobre o espectro da mulher. Penso o tempo todo nessas mulheres e nesses homens distantes, aqueles que quem sabe andar na rua conhece muito bem. Acho que sinto a solidão dos homens como mais dolorida, porque eu sou um, mas em geral acaba passando pra todos os seres. E como essa solidão se descontrolada pode ser o canteiro das piores maldades. Não mergulho tanto nas cidades porque não é uma dor muito interessante pra se sustentar, mas os milhões anônimos, gente que se vê na rua, é tudo tão triste. E os jovens que morrem, aos cantos. Dizem que sentir dó tem uma raiz de prepotência, ou narcisismo, como se você por dentro tirasse as próprias conclusões de que aquele ou aquela desconhecida sofrem, ou têm uma vida muito merda, o que às vezes não é verdade, e é preciso tomar cuidado com as ilusões. La Strada, do Fellini. Mas eu sempre senti muita dó mesmo assim, ainda que a gente vá armando uma couraça, especialmente na metrópole. As coisas não podiam estar assim, e por isso que a Jo me encantou tanto. Não vou citar ela no trabalho, não sei, mas ela anda comigo e tenho um pressentimento de que em algum trabalho ou trabalhos futuros ela vai ser muito importante pra mim. Incel é uma figura que me intriga. Algo me faz compadecer por eles, e em geral acho que é um termo pejorativo e simplista demais, sexualizado demais, pra um problema de alta complexidade social. Talvez por eu saber o que é solidão, por ser homem, e por conseguir imaginar muito bem como o ressentimento e a amargura podem destruir a alma de um. Isso é mais claro que água. Acho que precisamos de mais frentes atentas a esse problema. É um trabalho de mutirão. Chove em Porto Alegre, forte. Me sinto tão bem, tão feliz. E a gente quer passar isso pra frente, mas sabe que na verdade cada pessoa tem o seu tempo e a sua decisão. Sempre defendi a tese de que a pessoa deprimida é no fundo no fundo tremendamente apaixonada por todas as coisas e por tudo, pela vida, e pra ela tudo é sensível, tudo é tocante, e vem então aquele peso de não poder abarcar tudo e que o tempo pra isso é finito. E se desiste. Pensar demais e sentir demais é meio que obviamente explosivo, então é preciso cuidado. Não sei muito bem quem lê isso, mas peço desculpas por às vezes pesar a mão. Não tem outro jeito, às vezes sai o que sai. A coisa do trabalho da vida ser um ‘mutirão’ eu ouvi da boca do Ferreira Gullar, grandes momentos de orgulho. Na Flipoços, onde ele foi patrono. Um sujeito perguntou da plateia como ser poeta, porque ele não conseguia, tentava, tentava, não conseguia, não saía a poesia. O Gullar teve um faniquito, disse pro homem que não era pra todo mundo ser poeta! Precisava pedreiro, contador, balconista, piloto. E que a vida era um mutirão, por isso.
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Jolenon, o Airoso

Ah o ar! As nuvenzinhas, as fumacinhas, os gases, os seres invisíveis nórdicos embaixo das pedras e quase não tocando os musgos com as botinhas, bebendo dos pequenos orvalhos o suco elementar, da alegria, da bondade e do bem-fazer. Ah o ar! E havia os grandes pequenos bailes também, onde os rivais pavonescos sorriam mas torciam pelo tropeço, porque as plumas valiam a glória e a cadeira anual do céu, e mesmo entre os serezinhos do ar existem aqueles que trazem do passado o peso das pequenas invejas que corroem a alma aos poucos como ferrugem mesmo, como era Jolenon, o Airoso, que cresceu ali pelo meios dos musgos e dos cogumelos mágicos, cheio das cores, um tanto retardadinho em comparação com os colegas da sala, mas muito colorido e alegre, e cresceu ali pelo meios dos penas, e da música e das ocarinas de argila, o som que anunciava esse povoado da nossa atmosfera. Muito deixado de lado, fez logo a amizade com os animaizinhos que não falavam, mas que faziam os ruídos sinceros e ensinavam coisas como saltar e agarrar insetos, ou cavoucar a terra pelas minhocas graúdas, bugigangas da terra, às vezes um anel, uma pedrinha, uma moedinha. Embaixo de um velho tronco podre, Jolenon fez sua toca. Cuidou da luz de entrada, fez questão da mesa ensolarada, o subsolo mais frio dos víveres e compotas, muito bem organizadinhos em gavetas nomeadas, as etiquetas de letra bonita feitas a pincel. As geleias, as amoras, os picles, o pão fresco, e foi se enterrando até inclusive longe do ar, enquanto os Airosos erguiam imensos edifícios de jacarandá, ipê e sibipirunas, cheios de portinhas, janelinhas, varandas, pontes levadiças, teleféricos de galho em galho, e as copas enfeitadas cheias de festa e glória, e lutas também pelos namoricos, a procriação na orgias livres da nudez, porque o ar era infinito como era aquela populaçãozinha. Jolenon logo descobriu os prazeres das ervas, e com o seu canudinho de bambu, soltava pela janela as nuvenzinhas lisérgicas que iam lá pro alto invisíveis, ou não tanto, porque uma Airosa, uma senhora velha já meio cega, que cuidava na coleira um besourinho de três olhos, ela morava no topo do tronco podre sentia o aroma e gritava sempre pelas manhãs Vai trabalhar vagabundo é esse cheiro o dia inteiro, não há quem aguente! E quando o Ar dormia, Jolenon saía da toca e ia perambular pelos vales, saltando de uma planta a outra, colhendo amostras e todos os tipos de cores, unguentos, bases, sonhando com a glória do grande baile.
Atrás de uma rocha, fez um pio sôfrego o animal, e era um pavão pelado, já todo sem as penas, e Jolenon se assustou. Muito desacostumado ao sangue, achou estranhíssima a criatura que disse Eles veem buscar minhas plumas, e é sempre quando não se vê nada, e a dor é muito grande, e eu tive filhos, tive cinco pavãozinhos muito espertos, dois foram fazer Medicina na Floresta Alta, um é engenheiro de açude e um casal já é rico. Jolenon agarrou o pavão e colocou no colo, porque o pavão já despavoado não voava e quase mal andava. Antes de desmaiar ainda disse Os outros, os outros.. E um pouco mais adiante Jolenon viu o vale da morte, as criaturas gelatinosas rastejando pelo barro, já cheirando mal e azedo, e o ruído era oco, pra dentro, um silêncio mórbido. Jolenon aterrorizado olhava os céus, respirava o ar e sentia dentro dos pulmões uma agulha, que transpassava a garganta e ia parar no intestino, que já amolecia as fezes. Jolenon cagou-se todo na calça. Teve vergonha, correu de volta ao tronco com a criatura nos braços. Naquela noite, remexeu os baús, abriu as coleções de todos os anos, as pedrinhas, as sementes, as folhas, e os Airosos o chamaram Jolenon, o Maluco. No chapéu, fez questão de deixar sempre uma pluma de pavão fresca, ainda com um pedaço de carne na ponta, que molhava de sangue a aba e fedia ainda mais. Cheirou mal, fez as aglomerações abrirem, furou filas. Ganhou coisas de graça, deixaram comida na frente do tronco. E no vale da morte, Jolenon passava agora seus dias. Abria as jacas, removia a cola poderosa e ia tapando os corpos com as lantejoulas, as figas, os caroços, buscando as cores originais impossíveis. Os pavões, meio moribundos, olhavam com os olhos mortos ainda vivos, aquele ser do céu trazendo as coisas de volta. O voo, não mais, mas os menos destroçados seguiam Jolenon como a um deus, que ia tocando sua flautinha de nuvens à frente, no seu pequeno baile subversivo. Jolenon vestia os galões dos militares, e tinha agora os seus soldadinhos salvos, prontos para a batalha. Houve a Guerra entre Ar e Terra.
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Jolenon, o Airoso
Muito prazeroso o desenho do Jolenon, o Airoso, que saiu exatamente assim airoso, muito leve e simpático, ainda que talvez quando se escreva surjam camadas as quais eu não vou saber agora. É engraçado como o reflexo do dia entra no desenho, porque havia sido uma manhã airosa e agradável. Você tem um clima e me parece óbvio que esse clima vai interferir. Assim, o Airoso provavelmente não apareceria em um dia melancólico. Talvez viesse o Terroso, o Aquoso, que me parece agora algum vilão do He-Man. Ah não, aquele era o Aquático. Também é muito claro que cada fragmento desses desenhos veem de mim naturalmente como fragmentos de sonhos, que não dá pra outra outra pessoa compreender. Não de apenas sonhos, mas vivências do cotidiano também, que circundam os dias próximos, ou distantes. Tive uma conversa hoje sobre memória, e um certo consenso é de que a primeira que lembramos é de por volta dos três anos, e que se você quiser essa lembrança pode ser um estandarte de todo sua vida adiante. Quando cavouquei essa época uns anos atrás, me veio uma de 1984, olhando o cometa Halley da fazenda do velho Carlito, em que me puseram sobre uma escadinha e meus pais diziam Tá vendo? E eu via, uma discreta manchinha branca bem no horizonte, uma noite escura e limpa. Mas eu também lembro de urinar no beliche do Trem de Prata indo pro Rio de Janeiro, então não sei. Um fragmento é que o álbum Jolene da Dolly Parton é o que eu tenho mais escutado nos últimos dias. A simplesmente perfeição, e a mulher ainda era engraçadíssima. Mas não conheço muito sua história. Quero um dia conhecer o miolo dos Estados Unidos, parar naqueles postos de estrada. É talvez influencia do Kerouac, mas não apenas. Tem todo o cinema, claro. Bob Dylan. Os horizontes, porque faz muito tempo que não entro na natureza, e isso faz falta.
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Axel

Axel, que havia sido Lexa, era um homem de estrutura grande, e os seios eram seguros pesados por um sutiã costurado por ele, e por cima um vestido de chita roxa e um cinto de couro largo que ele também havia feito, porque Axel tinha domínio do que era feito pelas mãos, além do domínio do que era feito pelo corpo, e domínio do que era feito em uma selva onde se procurava o ouro, o feijão e o gozo. A selva amazônica, o triângulo entre Manaus, Roraima e Caracas, onde um sujeito como Axel servira desde menina, e por isso levava nas costas um grande machado de aço profundo, que ele havia encontrado no mercado do Rio Negro. O dono que o vendeu disse Esse é o machado do Boto, que foi recuperado de uma chalaça afundada com quatorze pessoas, carregada com castanhas demais, e daí emborcada com as rajadas que ali na vastidão daquelas águas são fortíssimas, e fazem bons marinheiros, ainda que o marinheiro daquela cabotagem não havia sido assim tão bom demais. Axel comprou o machado por alguns mirréis, e o cabo foi feito de madeira dura, parecida com aroeira, e Axel com os peitos fartos e sentimentos mortos transformou em um abridor de picadas e estradas, embora ainda não o tivessem capturado pelas cabeças de mais de duas dezenas de homens encontradas perto de São Gabriel, o canteiro que chamaram Pol Pot, como se Axel depois fosse uma espécie de ditador cambojano, mas Axel não entendia de política e muito menos de estratégias de expansão territorial, mas entendia de homens e entendia de árvores derrubadas. Primeiro ele pensava que queria também os seios derrubados, removidos por uma quantia que ele nem de perto possuía, e os hormônios, e a vontade dos pelos, dos músculos, da voz mais intimidadora, e foi de um gringo simpático, um norueguês que vencera já o Tapajós de caiaque, que ele ouviu o plot de Dog Day Afternoon, e viu também pela primeira vez o rosto de Al Pacino bem tenro, aquela cara zolhada meio abobada, que ele achou bonito, mesmo na tela pequena do celular. O norueguês tinha mandado pra que Axel engolisse o sêmem, e Axel o fez, e foi com a boca melada que ele disse, Aqui quem manda é o ouro, as pequenas pepitas sob as caixas registradoras, nos dentes, mas também as igrejas, as escolas, as crianças bem educadas e alegres nas matemáticas, nas vontades de sair ou ficar, no que vem e no que é firmado pelas telas de informação. O norueguês parecia querer saber se Axel tinha já um tesouro escondido, já que tantos homens e tanto couro cozido, e tantas doenças, tantas erupções, e Axel olhava pra fora, sentia que não tinha o direito de arrancar a cabeça de um homem loiro e estrangeiro e isso ele não entendia exatamente por quê.
— No filme esses duas moços assaltam una tipo de banca. O Al Pacino quer o dinheiro parra o namorado remover o pênis, que é a outro ator que não lembro o nome… O Fredo! Godfather, conhece?
Axel disse que sim, mas não lembrava do rosto. Teve essa ideia então de coletar ouro, porque era o seu ouro, porque Axel havia tido avós e avôs e bisavós que eram todos desse mundo, e ouro obviamente saía da terra, o que caía em contradição com todas as noções de propriedade e terra que era o que movia o mundo (mas isso já é coisa do narrador e não de Axel, ainda que os dois se amem). Na alcova de Axel havia a plaquinha do “Traseiro do Mal”, e por algum motivo era pra onde iam todos os mineradores, empreiteiros, gerentes e também índigenas armados, gente que não temia de modo algum o mal, pra quem o mal era até sinônimo do próprio êxtase que era aquele bordel maldito. Os trabalhos noturnos. E quando Axel, durante o dia, se via no meio da mata, e cheirava aquele perfume doce que sobe da terra molhada, e úmida tanto pelas copas quanto pela brisa ribeirinha, quente, ele lembrava o quanto lhe fazia falta o silêncio e a ausência da fala e dos gritos e das partilhas, e sabia que existia uma lembrança de menina em algum lugar, ainda que invisível e disforme por já três décadas ou talvez fosse mais. A terra era mulher, essa era a mitologia, e pra Axel isso fazia sentido. A terra, mesmo sem ele mesmo saber, permitia os nascimentos e os renascimentos pra sempre, a prova era a mata ao redor, as plantas, as cabeças enterradas. Axel Shining Axe Bad Ass, que confecciona os próprios sutiãs, e os vestidos e os cintos. A avó uma vez a ensinara bem criança a fazer uma linha com a fibra do Tucum, uma folha de palmeira. E avó sentava direto na terra, e mostrava como se partia a folha ao meio, a junção apertada pelos dedões e o puxão que revelava abaixo do verde uma teia de aranha vegetal, fortíssima a ponto de puxar os grandes peixes amazônicos, e as redes, que davam de comer a todos. Havia essa linha na memória de Axel, que era a linha do machado afiado. A linha do sutiã, das peças de roupa. Mas é claro que há muito mais história, nas curvas do rio, porque nem tudo era barbaridade, ou ouro.
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Maestrônio

Tudo aconteceu no Espaço. Porque a Terra havia sido coberta pelo Vácuo, a ausência de atmosfera. A espaçonave Cubo, em que eu era o copiloto, ela era comandava pela cirurgiã Adelaide, uma australiana que havia sido tudo além de cirurgiã. Agora ela era Piloto. O Cubo era apenas nós dois, seria um outro tempo, muito mais a frente do que o de agora. Os grande estafes espaciais, aeronautas, eram já obsoletos. We got machines, nós temos as máquinas, e isso bastará. A missão, ela sim, ainda existia, talvez porque uma missão jamais possui uma superfície que se possa tocar, não é um objeto, mas um vetor. Nossa missão era alcançar o Atrito, a última galáxia, a última chave do Universo. A resposta estava no Atrito, e a isso fomos encarregados. Quero dizer, ela me fodia, eu fodia ela, no salão de jogos, em cima de todos os tabuleiros decorados por décadas e décadas espaço adentro, cada vez mais longe da Terra, que já talvez nem existisse mais, fosse apenas terra batida, ar envenenado e um resto de androides recauchutados. A sala tinha até um nome, Joy Division. Na testa de Adelaide e minha havia as cicatrizes em linhas dos sinais de rádio de Arecibo, o pulsar PSR dos Unknown Pleasures, o álbum que havia sido tocado na Terra pelos auto falantes enquanto o ar ia sendo gradualmente envenenado pra que se conseguisse enfim o último de todos os sonhos do Governo Racional, o grande Purge, o recomeço, a virada de mesa, um reset e uma nova criação baseada unicamente em planilhas Excel. Todos morreram em no máximo 5 dias, sob a voz de Ian Curtis. Adelaide e eu sobrevivemos, encarregados pelo Governo Racional de buscar o Atrito. Então seguimos nós dois, com a testa marcada como dois Klingons fantásticos.
A teoria pela busca do Atrito era ridiculamente simples. Partia da tese provada de que tudo em todos os tempos caminhava em direção ao Equilíbrio, e que o Equilíbrio era o estado final e começo de todas as coisas. A Humanidade provara isso com seus atos. Bem e o Mal, o fim Equilíbrio. A Guerra contra a Guerra, o fim Equilíbrio. Uma pequena bola de Bocha arremessada pelo longo corredor de cimento batido, acelerando com o arremesso e depois desacelerando lentamente, com a ação do Atrito. E enfim equilibrada, do lançamento potencial do jogador à imobilidade final, estática. Ou seja, estava no Atrito a resposta final. O Equilíbrio era alcançado pela força do Atrito. Mas e o Universo? E o Vácuo? Você arremessa um tolete de merda em direção à Vênus e um dia esse tolete de merda chegará lá. Não há Atrito. Não há Equilíbrio. Encontrar a origem do Atrito era a nossa missão. Então quando eu deitava na Joy Division depois do banho e Adelaide deitava ao meu lado, com a boca aberta embaixo do meu maxilar, as unhas pelas costelas, e ela dizia “Fome” enquanto já ia abrindo as pernas espumadas por cima de mim, e metia a testa cicatrizada na minha, e as pequenas fendinhas machos e fêmeas se completavam e abria-se o portal do Atrito cujo estopim ou pista de rota podia ser apenas o Amor Louco. Ou, se você procura a reposta para o grande mistério do Universo, precisa apenas se foder até lá. Talvez Deus fosse Ian Curtis, ou a mãe de Ian Curtis. Talvez Curtis fosse o Jesus do Espaço. Adelaide caiu pelo sofá da sala, sonolenta. Disse que queria um refrigerante.
— Quer ver um filme? — eu perguntei.
— Coloca qualquer porcaria — ela disse.
E blim-blom fez a campainha do Cubo.
— Uma boa tarde! — disse a figura quando abri a porta. — Tem um minutinho pra ouvir a palavra dos Maestrônios?
Eu tinha esquecido as pantufas, o piso estava frio e isso no Cubo era pedir pra tomar um choque, então talvez eu não tenha sido muito simpático.
— Boa tarde. Palavra de quem?
— Dos Maestrônios! — e a figura levantou a vasile de couro e apontou pro pequeno broche no peito. Dizia Maestrônio #1651234323, o que eu sem querer li algo como Mastercard e um número de cpf.
— Não queremos comprar nada — eu disse, e fui fechando a porta.
— Não, não, senhor, não sou vendedor. Sou um provedor. Parece que alguém aqui está a procura de Atrito, não é?
Fechei um pouco meu robe.
— Atrito?
A figura sorriu. Um pouco mais próxima da iluminação da porta, eu enxerguei melhor seu contorno. Corpo gelatinoso, um pouco réptil, a superfície marcada por um punhado de doodles, esses rabiscos que se faz ao telefone. Tinha o que parecia um conjunto de tentáculos maiores dos quais saía uma porção de cabos da finura de fios de ovos, e flutuavam ao redor da figura.
— Posso? — ela disse, sorrindo.
— Entre — eu disse, com um resmungo curioso.
— Querido! Quem é? — ouvi a Adelaide da sala.
— Ainda não sei bem querida.
— Um Maestrônio — a figura falou baixinho, se inclinando em direção ao meu pescoço.
— Um Maestrônio — eu falei alto, pra dentro do Cubo.
— Um o quê?
— Um Maestrônio? Diga que não queremos nada.
Eu me voltei pra figura.
— Olha meu senhor, não estamos interessados. Talvez um copo d’água?
— Não são os senhores que estão em busca do Atrito, o elo perdido para entender o nosso Universo?
— Como o senhor sabe disso — perguntei.
— Bem, é o meu trabalho, senhor. Não te interessa uma breve exibição das respostas?
E a figura apontou a valise, que era de couro velho.
Adelaide chegou, fechando o robe.
— Boa tarde — ela disse.
— Boa tarde, minha senhora. Maestrônio, ao seu dispor.
Cumprimentaram-se. Ele continuou.
— Estava explicando aqui pro seu… marido?
— Companheiro.
— Companheiro! Que eu trago comigo as explicações que vocês estão a procura.
— Você tem Atrito aí?
— Opa. Tenho sim, todas as variedades. Sexo, treta, discussão, trombada, acidente de carro, peido de elevador, nosso portifólio é ilimitado. Tenho inclusive provedor de nave espacial empatador de foda das galáxias.
E deu uma piscadinha pra nós dóis, com um olhão meio peixe-boi, ainda que alegre.
— Olha, o senhor vai me desculpar — a Adelaide disse — mas a missão aqui é coisa séria, precisamos chegar à galáxia de Atrito, recolher amostras, computar frequências, calcular e mapear todas as variantes.
— Sentiram isso? Sentiram? — ele perguntou pra nós, fazendo uma rodinha com as mãos mostrando nós três. — Sentiram o Atritinho?
O Maestrônio continuou.
— Minha senhora, não existe galáxia de Atrito nenhuma, isso é coisa de propaganda enganosa, igual quando transformaram o Guia Quatro Rodas em guia Michelin pra promover restaurante com jabá. Atrito aqui na região dá em qualquer quintal, é só pegar.
Eu e Adelaide nos olhamos.
— Acho que dar uma olhada em uns Atritinhos não é mal, né? — ela disse. — Não é como se tivéssemos tanta coisa pra fazer agora.
Os Maestrônios nasciam do ponto central do 8, o número do infinito. Esse era o Ponto de Atrito, e por isso eles possuíam tanta expertise em atrito. Os Maestrônios equilibravam o Universo e o Cérebro Humano. Habitavam essa região, melhor zona de guerra, onde jamais existiram dúvida alguma de que tudo era Uno, conhecimento que apenas os budistas haviam alcançado a beiradinha. Os Maestrônios sabiam que não havia nada de misterioso em Tudo, e que tudo era apenas uma grande cebola crua, em que um neurônio cerebral humano, multiplicado bilhões de vezes, dava forma a um Indivíduo humano, que por sua vez agia no mundo do nascimento à morte, olhando deitado na relva negra olhando o céu infinito, em que nunca jamais alguém poderia ser ateu, jamais, porque se se olhasse profundo aos céus até o ponto em que os pelos do corpo se eriçam e você sente no estômago a dor de todas as suas histórias, e que esse Indivíduo poderia ser saudável ou morrer como ele mesmo um neurônio sadio ou não, embora isso não dependesse de nada — esse Indivíduo era ele mesmo um novo neurônio do mundo, desse Universo acima, que é talvez um feirante, um mecânico de bicicletas, uma advogada. E que nessa advogada todo o ciclo se repetiria, e tudo faria sentido ou não, porque não importava.
— O Atrito é o combustível da Vida — disse o Maestrônio, projetando um powerpoint de produtos na nossa cozinha.
Compramos uma ou outra coisa. Pela janela, o Maestrônio entrou em sua motoquinha interestelar, e antes lacrou bem o baú da garupa. Nós o vimos, seu rastro de luz, sumir atrás de uma nuvem de poeira.
— Acabou o refrigerante — eu disse.
— Eu pedi pra você trazer do depósito ontem — ela disse.
— Preguiçosa.
— Imbecil.
— Eu te amo.
— Eu também te amo.
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Axel
Axel foi um desenho peculiar e um pouco incômodo. Porque ele apareceu como um homem trans, então junto vem todo um emaranhado de lugar de fala, algo que eu prezo (mais em público do que nos clubes de comédia privados) e por isso tomo cuidado, mas que entra em conflito com duas gavetas muito concretas e lúcidas que existem dentro de mim, a da realidade e a da imaginação. A discussão é vastíssima demais pra cá (quem é da Escrita Criativa conhece bem a eterna discussão entre separar ou não o autor da obra), então vou pular pela superfície, como aquelas simpáticas aranhas de cachoeira. A narrativa ao redor de Axel apareceu bem instigante, bem tarantinesca, e com um alicerce sexualizado — o que talvez seja o ponto mais delicado, já que eu imagino que um homem trans só deseja no fim ser qualquer coisa além de qualquer estereótipo, por exemplo a vida pacata de um contador. A sexualização dos caras é provavelmente fruto da minha criação 90’s que eu coloco sempre em perspectiva, mas que a inconsciência do improv evoca sem partido. O improviso simplesmente não se importa. Ele provalvemente vai te fazer expor qualquer recalque reprimido, e se você tiver medo de si vai ter medo de improvisar (isso eu tô dizendo sem nunca ter feito improviso de palco, então não sei muito se é assim que funciona. Pelo que eu li, sim.). Mas por outro lado, a questão trans parte do sexo e do gênero, então acho que por um tempo a questão naturalmente circulará ao redor dessa frugalidade simplória. O que eu quero dizer, também, é que é bem mais difícil pra mim escrever com uma liberdade total, pesando a mão na sátira, quando a figura não é um homem branco comum igual eu, que é o mundo que eu domino justamente por ser o meu desde sempre. É um bocado por isso também que é muito raro eu desenhar mulheres nos cartuns. Provavelmente vou fazer 10 personagens homens e não vejo nenhum problema nisso. Não é que eu não me sinta no direito de fazer uma mina, mas me sinto desconfortável pra tirar o sarro, que é bem melhor se vier de elas mesmo. Isso na comédia, que é mil vezes mais delicada que o drama. Acho essa divisão até que bem saudável, cada um escrevendo sobre si e todos lendo sobre todos. Tem escritor malandro que fagocita os discursos em alta ao invés de ir apenas tomar uma água na coxia. Isso não quer dizer que se um dia me der na telha de escrever sobre alguém muito diferente de mim eu não vá escrever, vou escrever sim justamente pela gaveta sagrada da imaginação, e se alguém quiser me tomar a chave vai precisar de ordem judicial, que eu até aceito pois sou temente a lei e gosto da ideia de não ser preso. Mas acho meio difícil que isso aconteça. Acho muito difícil que eu tenha vontade de escrever algo que eu não sinta visceral e real na minha história. A vida do homem branco já é patética demais, e eu amo o espectro patético. Eu poderia escrever patetices pro resto da minha vida. Quer dizer, até visualizo um dia fazendo uma narrativa grande na perspectiva de uma mulher. Mas acho que precisa fazer sentido e estar de acordo com o que eu quero dizer. Enfim, a coisa tem que fazer sentido, apenas. Sempre é bom lembrar o mote do meu blog. Tudo isso eu penso até ontem e talvez não pense mais até o final do dia. Agora tenho dois continhos acumulados, do Maestrônio e do Axel. Vamos nessa. 2023 vai terminando e acho que o próximo ano vai ser incrível. Porto Alegre fica vazia nos recessos, o povo ou vai pra praia ou vai pra montanha. Bem gostoso.
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Maestrônio
Tinha que adiantar o ensaio mas não tive pique, então fui desenhar mais um personagem. Ficou estranhíssimo, não muito humanóide que é o costume. Meio sci-fi, meio filosofia cabeçuda. Porém fez sentido porque tenho lido um bocado fascinado sobre neurociência. Talvez então tenha sido reflexo disso. É um desses for dummies, aliás uma coleção honesta que gosto muito. O nível de detalhe que já se conhece sobre o cérebro humano é uma coisa de maluco, não fazia ideia. Não sabia nem que neurônio era uma célula, digo fisicamente uma célula. Achei que era só uma explosão quase imaterial de eletricidade, algo assim. Mas ela tem o corpo, os raminhos, que acabou surgindo nesse personagem Maestrônio.
Esses dias voltei a ver uns cartunistas que eu gosto. Vi um desenho do gringo que eu mais gosto, o Edward Steed. É um sujeito low-profile, sem mídias, mas fez umas capas na New Yorker e tudo. Deu pilha de voltar a fazer os meus, até porque esses exercícios aqui vão bem pra fora do traço que eu tinha “conquistado”. Porque ainda que eu tente desenhar como se estivesse desenhando sozinho, falar junto, imaginar uns espectadores, tira a naturalidade. Enfim, tomei aqui como um experimento, e acho que depois de março volto aos cartuns mesmo. Saudade das punch-lines, das caras engraçadas.
O Maestrônio me lembrou o final do filme dos Simpsons, quando tem aquele chorinho mostrando o universo como dentro da bola de gude de uns etzinhos de um outro o plano. MIB também tem uma coisa assim. Eu realmente gosto dessa ideia e nem me parece tão maluca assim. Fui pesquisar se tem exatamente um nome essa linha filosófica, mas há coisas mais gerais, como Panpsiquismo, Teorias da Simulação, etc. Quero dizer, se cada nós humanos fôssemos o neurônio de um big cérebro. Você lê sobre neurociência e encontra mais analogias do que disparates, é engraçado. Se você tomar emprestada essa tese dá pra gerar um monte de paralelismos. Galáxias/lobos, história/memória, big-bang/parto, destruição de um planeta/aneurisma-câncer-alzheimer/a própria velhice. Como eu gosto de ver o mundo narrativamente, acho até ok, ainda que jamais será provado. É engraçado. Acho que vai dar um bom contículo, ainda que eu não pire muito em ficção científica. Voltei a pensar no Eça, e provavelmente o que eu quero mesmo é voltar pras minhas novelas cômicas. Ideia é que não me falta, só preciso terminar esse mestrado, fazer um detox acampado em alguma praia e entrar na pilha da diversão que eu sentia tanto. Pode não ter muito a ver comigo a ideia do mestrado aqui, mas com certeza ele me parece um movimento necessário e inevitável do meu percurso. Ele é definitivamente um mantra de liberdade e leveza, coisas que eu andava precisando demais. É mesmo um divisor de águas, justamente porque ele me ajudou a mudar uma perspectiva de trabalho — ou tem me ajudado a mudar — de peso, perfeccionismo e dureza. Vamos ver se isso se sustenta, acho que sim.
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Pedregulho

O palhaço Pedregulho havia sido o senhor Pedrini, dono de construtora, então ele já se sabia destinado ao limbo eterno, o hall da espera, porque todo palhaço merece o reino dos céus. Os bons palhaços, não de provocar graça, mas bons no cotidiano, os que não mataram alguém, bateram em mulher ou desviaram dinheiro de alguém que precisava mais. Muito mais lá em frente, Pedregulho descobriria que Deus não — não Deus, mas o chefe do departamento do limbo, o responsável por dizer “O senhor para lá, a senhora para cá, cachorro não entra, duas malas apenas, essa não é de mão”, e que era até muito semelhante ao balcão de entrada da construtora Pedrini — que Deus, esse chefe do limbo, não tinha nenhum senso de humor, absolutamente nenhum, tinha a cara amarrada, lombalgia e uma espécie de cajado (a única coisa mais ou menos bíblica que Pedregulho viu depois da morte por ali) com que ele batia no chão e vinha um anjinho muito bonitinho com uma bandejinha dizendo “Seu remedinho, Senhor”.
O senhor Pedrini tinha tido dois quase infartos, o primeiro na obra de Miami, o segundo na obra dos índios Kaiungu, o que gerara inúmeras milhas, infinitos estresses de estrada, porque o senhor Pedrini era desses donos de construtora presentes, que realmente gostam de ver a construção sendo construída com os próprios olhos. Ou seja, foram dois infartos dentro de aviões. Do próprio avião, um jatinho que ele comprara de segunda mão de um feirão em Estocolmo, e que ele mandara trazer de navio, porque afinal era precisa economizar em certas coisas. O avião não lhe trouxera sorte. Mas o banheiro era grande, o maior da categoria, o que ajudou nestes dois momentos de quase infartos, porque os seguranças tiveram espaço pra colocar o senhor Pedrini com a cabeça pra dentro do vaso sanitário enquanto ele vomitava e o médico particular do senhor Pedrini, que também era o piloto do avião, dizia “Não é infarto, é alguma coisa que o senhor comeu antes de embarcar”. Bem, o senhor Pedrini cansou de brincar de construir e decidiu que ia ser palhaço. Muitos na construtora já o chamavam assim, o que ele entendeu como um bom sinal. Pedrini fez uns cursos, em que ele não revelava sua profissão ou sua riqueza. Sentia-se mal em chegar no tablado e dizer “Sou dono de construtora, tenho um jatinho sueco, já sou naturalmente engraçado na empresa então talvez eu nem precise disso aqui”, enquanto ao seu lado estavam atores, artistas, desenhistas, dentistas, nutricionistas, enfim, ninguém tão rico quanto ele. Embaixo do Picadeiro, ele escolheu ser apenas Pedregulho, herança das pedras egípcias, fundação primordial de todos os construtores, da saudosa época dos escravos, agora cheios de parafernálias de carteira de trabalho, décimo terceiro, seguro saúde etc. O senhor Pedrini era um saudosista, mas o palhaço Pedregulho tinha os olhos bem arregalados apenas na realidade. Ele se sentiu um novo homem. Comparadas as duas roupas, Pedrini havia sido um modelo de yuppie, camisa azul e gola branca alta e dura, a gravata perfeita em nó simples já que Windsor era coisa de hippie, a geração anterior que ele detestara — mas que agora até amava um pouquinho. O Pedregulho tinha as roupas coloridas, alugadas em uma garagem que era metade brechó metade empório de ervas. Arrematava o palhaço uma gravata preta de plástico, uma peruca de mullets negros, e uma espátula de pedreiro que era a marca registrada do Pedregulho. Óculos de avó, dois brincos de plástico.
O que a turma do tablado não conseguiu arrancar do Pedregulho era como ele havia conseguido que uma pequena nuvem escura ficasse o tempo todo flutuando sobre ele, bem quadrinhos anos 80, e caísse uma chuvinha fria ininterrupta, daquelas de São Paulo também nos anos 80, até porque bem a época dos yuppies. Ou seja, o Palhaço Pedregulho estava sempre molhado, com frio e com dificuldades para que alguém sentasse ao seu lado. No circo, contudo, a atração ganhou ares. Palhaço Pedregulho, o palhaço que faz chover! As crianças o adoravam. Principalmente nas apresentações nos dias de calor, em que Pedregulho corria pelas tangentes do picadeiro espirrando água fresca nos camarotes, enquanto as crianças das famílias mais pobres gritavam das fileiras do fundo “Também estamos com sede, Palhaço Pedregulho!”. Pedregulho sorria, levantava a pá de pedreiro e tinha pequenos rompantes do senhor Pedrini, “Só o trabalho, pequenos, só o trabalho!”.
Pedregulho morreu no circo, uns meses depois da proibição de animais vivos. Veio a geração dos circos fantásticos, incrementados, elegantes. Aquilo entristeceu Pedregulho. Se viu sentado em seu trailer de piso vazado fazendo pequenas continhas na tábua da mesa, pegando no sono com a calculadora na mão. Embaixo do abajur, uma pequena construção feita de caixinhas de fósforo em que se lia uma observação à lápis “Eu só espero que o céu seja um pouco como os Estados Unidos”.
Veio o limbo. As crianças, o picadeiro, aquele lampejo de vida da fase palhaça tirou o senhor Pedrini da ida expressa ao Inferno. Quando ele chegou, com a sua nuvenzinha escura pairando sobre a cabeça, sentiu-se até bem confortável, porque ao redor o papel de parede era com desenhos de nuvens das mais variadas. Sentiu-se confortável pela primeira vez. Talvez fosse as cadeiras de plástico, o café quente junto ao balcão, os office boys segurando nas mãos uns capacetes esfolados. O som dos computadores, dos teclados, a simpatia das moças da recepção. A Grande Construtora Picadeiro, podia ser o nome ali. O chefe do cajado enxotava as crianças, dizendo que o limbo era só pra de maior.
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Pedregulho
O legal de fazer um trabalho de escrita misturado com desenho é que se você cansa de escrever você desenha e o vice versa você escreve. E se você cansa dos dois você vai arrumar os estilos de parágrafo do Word.
A atração que eu tenho pelas vozes é uma coisa que eu ainda não via muito, e hoje em dia ela é quase que o mais interessante aqui. É muita gostosa a sensação da descoberta das cordas vocais. Que de repente você tem um instrumento miraculoso gratuito, meio moldável. O coral escola da UFRGS, acho que não lembro de uma decisão de ida mais prazerosa do que essa. O prazer de ir, estar, a comunhão. É tão raro eu fazer alguma coisa em que eu não sinta ansiedade. Aquela ansiedade debilitante. O coral é tipo -10 de ansiedade, no joke. E às vezes não é nem pelo canto em sim, e mais pelo canto ser a antessala da voz bloqueada, a maneira que me parece a mais fácil de explorar o discurso, que é um desejo quase mítico de um futuro próximo pra mim. Sempre tive uma atração idolatrada por discursos, esses da história, a oratória, os causos, a verve, o elan. Tem razões, tem o modo como era a minha família, tem o magnetismo do cinema, música, etc. Tem várias coisas. Mas é atração fatal sim, e tenho uma coleção de favoritos deles. Acho que o do Charles Chaplin no final do Ditador seja um dos mais. Mas a lista é longuíssima. O do Network também gosto. Tem algo de possessão na voz, de demanda por direito, de justiça, de não se deixar engolir. Nah, não sei se é bem isso. É o mecanismo da troca. É principalmente presença. Tem gente que simplesmente não está presente na sua frente, e essa sempre foi minha maior dificuldade com pessoas. Enfim. Depois de uma longa hibernação vocal, me parece muito natural que esse ímpeto ressurja em algum momento. A pausa nos tóxicos, a recuperação da clareza mental — longo trabalho terapêutico, mas possível –, é meu novo passatempo. Envolve mais um bom punhado de outras atenções, mas nem quero escrever sobre tudo. E não é jamais sobre sobriedade, que horror eu tenho de planfletar. É o flow, ir tentando coisas. Tenho tipo mil ideias sobre processos nessa área, maneiras de explorar jeitos de fazer isso em grupo, e fazer disso um tipo de pesquisa. Vou puxar um pouco as rédeas, mas as ideias estão aí e não me importo de que qualquer pessoa saiba. Acho que elas vão chegando aos poucos, e escrever aqui ajuda.
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Januário

Janvier chegou a Paris na friagem de outubro. Ele é brasileiro, especificamente das bordas do Rio de Janeiro, onde ele apenas nasceu e morou o resto em São Paulo. Sentiu-se paulistano, ainda que achasse aquela turma toda amarrada, especialmente na oratória. Bem no fundo da sua ancestralidade carioca, tudo que não possuía ritmo o incomodava. Lembrou quando criança entrou no primeiro Maracanã, e um homem enorme ao seu lado gritava fazendo graça na sua frente, pra cima de um zagueiro cuja lambança ele não vira e tampouco entendera.
— Mauro, o primeiro bonde recuperado!
Foi o berro do homem, e aquilo ficou em Januário. O nome de Janvier é Januário. Virou Janvier em Paris, quando o diretor da liga amadora de futebol de Paris, responsável por contratar Januário como locutor esportivo local, entendeu que Januário significava Janeiro e Janvier em francês é janeiro. Coincidentemente, Janvier chegou em Paris em outubro. O diretor queria um brasileiro na cabine de locução. Era fã do futebol brasileiro. Ele queria o swing da locução, a paixão. Tinha pegado birra do locutor atual, que era obcecado demais pela cultura francesa. Vinhos, queijos, instrumentos de sopro, essas coisas. França ou swing, os dois não combinavam. Coincidentemente, o locutor de quem Janvier tomou o lugar tornou-se um famoso locutor da primeira casa de swing a implementar a locução de suruba pelos auto falantes, uma prática que excitava um nicho cada vez maior de clientes.
— Gastón avança pela linha de fundo.
A recuperação de bondes havia sido política de um governador paulista. O pai lhe explicou muitos anos depois. Um programa de governo pra recuperar da sucata a situação lamentável dos bondes de São Paulo. Saíra a manchete na Gazeta, sobre a foto de um bonde novinho: O primeiro bonde recuperado.
Sentado aos pés da Torre Eiffel, que Janvier achou menos bonita do que a da Paulista (apenas porque Janvier tinha se apaixonado uma vez por uma mulher cuja varanda tinha vista pra ela), ele sentia saudade de casa mas também não muito. Ele entendia muito melhor todas as coisas. O zagueiro Mauro, que era do Vasco, tinha sido recauchutado de um joelho podre e trazido a preço de banana do Botafogo, e por isso o homenzarrão tinha gritado Mauro, o primeiro bonde recuperado.
Janvier riu. Um monte de coisas a gente só entende com o tempo. Ele lembrou da mulher da varanda. Da carreira como jornalista esportivo. O amor pelo samba. Tossiu. A friagem de outubro pegou ele de jeito. Fechou o camisolão, enfiou o gorro mais pra dentro. Tirou a caneta do bolso e escreveu no caderninho um refrãozinho qualquer. Queria um bordão pra chegar chegando na liga amadora. Anotou Bonde do Swing, nas não gostou muito da ideia.
Janvier ergueu a mão direita, deformada, com três dedos e dois mini dedos. Deu uns toc-tocs no banco, raspou o sapato no saibro. Saibro era saibro em qualquer lugar. O som da terra é o mesmo, França ou Brasil. Tinha vindo Januário por causa da música do Chico. Porque tinha essa história de que a mãe o tinha colocado na janela quando nasceu, e a rua veio homenagear a criança. Parto em casa, aquela proximidade de vila, o córrego alto cheirando mal. Januário na janela, nascido no último dia de outubro, e que depois fez do futebol e da locução a sua breve passada na terra, esse terrão de suor, sangue e putaria.
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Elvo

Elvo nasceu mexicano, próximo à fronteira com os Estados Unidos da América. Elvo nasceu em um circo, de uma família circense ali há gerações. Sua família era tão antiga quanto o próprio México. No momento do parto, contava a mãe de Elvo, ela logo soube que Elvo era alguém especial. Porque saiu do canal vaginal não um bebê lisinho e macio como era a maioria dos bebês, mas uma pequena bolinha de pelos escuros com um discreto bigode. Elvo era um deles. Elvo era o mais novo integrante dos Meninos-Leão, atração popular de circo no México. Grande rival dos Meninos-Lobo do sul de México, que se consideravam mais peludos ainda. Toda a família de Elvo possuía esse gene peculiar, em que pelos e cabelos cresciam com uma velocidade e intensidade acima da média. Elvo foi chamado Elvo porque seu pai era fã de Elvis e o funcionário do cartório era disléxico. Mas o pai de Elvis morreu no momento do parto, em um acidente de carro entre o bar e o hospital. A mãe amava o pai de Elvo e por isso deu o nome de Elvis no filho, ao invés do nome do pai de Elvo, que era Roberto. Elvo então veio ao mundo sob essas condições: filho de pai morto, filho de circo, de bigode e obrigado a gostar de Elvis Presley.
Corta pro Elvo adulto. Ele usa bermuda e camiseta e sua juba é a mais bela do circo porque agora é a única. O bigode, nunca cortado, ele tem a mania de enfiá-lo pelo colarinho e deixar escapar por detrás da camisa. Ele gosta da impressão do bigode parecer uma cauda de leão, que ele arrasta pela terra batida com ele nas mãos, como uma coleira velha. Elvo é o único que sobrou dos Meninos-Leão, depois que sua mãe e seus três irmãos e duas irmãs morreram em um acidente de van no caminho entre o bar e uma quinceañera. Agora Elvo é alcoólatra e acha que pode ser a reencarnação de Elvis Presley. Elvo acha que tem direito à Graceland, em Memphis, e por isso ele está decidido a atravessar a fronteira com os Estados Unidos e clamar o direito à sua terra. Elvo olha para o interior do seu trailer. Sobre o sofá está o pôster de Bert Lahr, espécie de grande guru místico dos Meninos-Leão. Bert Lahr foi o intérprete do Leão Covarde em o Mágico de Oz. O primeiro dos grandes Leões. Elvo entende que é hora de percorrer a sua estrada de ladrilhos amarelos, o grande deserto do Texas. E alcançar Graceland, a sua Oz.
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Januário
Saí com uma sensação meia boca desse, o que vai ser positivo porque nem tudo é produto fechado, perfil elegante. O fragmento do desenho pode importar, uma posição, uma sensação. Não só um super louro de graça e potencial. É engraçado perceber essa espécie de duas frentes (?) na criação não só artística mas também humana mesma: de um lado a dedicação planejada, minuciosa, laboratorial, do outro toda essa longa linhagem zen quântica, seja lá como chamar isso, do que surge pela abertura das torneiras inconscientes espontâneas. Não tomo partido, e nem acho que há eles, porque tudo se mistura né? O Johnstone é abertamente do segundo time, só que seu alicerce é bastante do primeiro. Que a própria pessoa que abre o livro, um Irving Wardle, confirma: “Like all great advocates of the unconscious, Johnstone is a sturdy rationalist“. Sturdy, procurando aqui, é resistente, rígido, firme. Esse é o paradoxo divertido, em que toda epifania e trabalho possui significados misteriosos em seu passado. No caso, uma imensa análise de questões concretas. Eu, eu mesmo, que até ontem sou devoto do poder do equilíbrio, admiro e ao mesmo tempo me mantenho extremamente carinhoso para com as bravuras analíticas das quais somos capazes. A gente entra nessa roda, de cá e de lá. E tá tudo bem. Me sinto mesmo fazendo uma pequena experiência laboratorial com a espontaneidade, e não tachando que ela é elixir para a epidemia do burnout mental que assola e assolará tanto ainda a todos nós e vindouros. Ainda que possa ser. Não… Se hoje me sinto tão bem quanto há tanto tempo, sou fruto de uma resiliência analítica quase imponderável, ao mesmo tempo incapaz de ter sido feita se não recheada com os mistérios da calma e da confiança em algo que nunca será palpável. Nem sei por que falei nisso. O blog tem começado meio assim com esses desabafos e que seja assim, embora os planos são outros, e são leves e extremamente empolgantes. O que me interessa de verdade no fundo de tudo é a crise de autenticidade dos quarenta, e o quão instigante e apavorante ela é.
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Elvo
Foi uma primeira tentativa divertida. Deu medo de não dar em nada, mas trabalho mais ou menos bem com o medo aqui. Ainda não sei se escrevo sobre, acho melhor o vídeo falar por si. Eu não tenho de verdade nenhum pensamento no sentido de que as pessoas vão acompanhar vídeos de 30, 40 minutos sobre devaneios gráficos um bocado malucos e sussurrentos, e me sinto muito bem que isso não seja uma preocupação. Mais pra frente queria fazer ao vivo, em live, pra calcar ainda mais a espontaneidade — talvez depois de firmar mais o que é isso. Tenho na real visto isso como um trabalho bem ~pra mim~, e eu me divirto com ele. No fim esse é a única matéria sólida da arte, estar mais ou menos contente pra si. Sei que alguns amigos gostam, mas não misturo muito amizade com isso. O blog é em certo sentido uma ilha pacata, onde atraca quem e como quiser. É tão diferente de outras mídias, onde me sinto meio foie gras. Não é uma ilha solitária, porque eu também não tenho mais tempo demais pra esticar demais a coisa a ponto de achar existe alguma simbiose entre toda essa brincadeira virtual e a minha realidade viva como pessoa lá fora. Se isso acontece às vezes, é pura brincadeira mesmo. Lá fora aliás tem sido bem feliz. Claro, há dificuldades, principalmente de comunicação e relacionamento, mas também dificuldades temos todos. Novembro é um mês importante, e tem também a proximidade do ano encerrar. As perspectivas são boas no geral. Penso principalmente e sempre em pessoas, as pessoas que eu gosto. E como as viagens são estúpidas, e as distâncias, e nos resta apenas desejar felicidade e amor e segurança pra longe. Embora não basta, e nunca basta.
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Flanando pelos cadernos
Flanando pelos cadernos, segue no vídeo aqui que é pra ser o primeiro de outros. Não tem grandes explicações porque é um começo de processo, e eu gosto do processo que vem aos poucos. Continuei a reler o Impro, do Johnstone, a única referência explícita do trabalho. Grande cara, muito responsável por parte da minha cura particular ainda que jamais tenha havido doença.Tenho pensado muito na palavra maleabilidade, em como tem me sido insuportável qualquer vontade de definição de qualquer coisa, qualquer coisa estática, analítica demais, de situações e principalmente de pessoas. Vem rápido Bruce Lee, aquela simpatia de adaptar-se como a água. No meio acadêmico, ou melhor ~ intelectual ~, seja lá o que é isso, e especialmente em um que envolve construção de personagem, essa obsessão analítica é quase insuportável. Haja saco. (Mas eu provavelmente estou projetando e quero apenas um detox pra retomar meus gostos.)
Nada disso tem a ver com o vídeo contudo. Foi bom fazer. Abrir a câmera, os cadernos, testar os ângulos, a equipagem. E daí largar.
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O horror diante de um livro
O horror diante de um livro, que está pra mim como um terrível cansaço pra começar e ler qualquer coisa. Essa é a minha situação atual, que é estranha não por ser grave, mas por ser ao mesmo tempo grave e cativante. Cativante não é super a palavra, mas serve. Então eu tenho observado esse horror com a minha costumeira calma. Calma que não é muito verdadeira, mais uma habilidade adquirida diante do desespero. Escrever então nem se fala, esse horror ao quadrado. Claro que não é horror, eu sou hiperbólico, mas pra aqui fica sendo. Eu tenho esse texto do mestrado em Escrita Criativa pra entregar no verão, que deve ser feito em paralelo à sensação de horror. Isso causa o problema, o paradoxo, de algo a ser resolvido por meio de ferramentas que machucam as mãos — e ah se fossem apenas as mãos. E eu consigo identificar a origem de tudo isso, conheço muito bem a minha biografia (estudei ela uns anos atrás como quem estuda o intestino de um sapo), mas esse não é o foco. O principal é que encontrei alguns caminhos possíveis. Keith Johnstone me salvou de alguma maneira. Que é um cara que o pessoal do teatro conhece, do improviso. Eu não sou do teatro, mas sou platônico. Da expressão, da graça etc. E eu tenho a coisa dos desenhos, dos cartuns, que ficaram ali no bolso do colete como se dizia. O trabalho então mistura um pouco dos dois. A real é que meu cérebro pediu arrego. Provavelmente por ter sido usado errado. Ou não? Talvez seja só uma fase, mas desisti de fazer qualquer coisa que coloque meu cerebrozinho em modo de tortura medieval. Um romance, uma novela, tem muita dessa dedicação que eu não tenho. Talvez eu tenha um dia, quando conseguir ressignificar meus processos de trabalho. Então tenho lido Johnstone e revirado meus papeis malucos cheios de caras esquisitas. O produto vai ser mais ou menos o encontro disso, já que não há muita ordem. Foi uma decisão que parece acertada, pelo menos. Até ontem não. Cativante porque é meio engraçado chegar ao fundo de um poço. É até que silencioso, fresco, não faz tanto calor. Você se observa, porque não há muito o que fazer. Tudo que falam é verdadeiro, os clichês. Você pode morrer, acontece, mas a sensação de que existe a saída do estudo, da análise e da recuperação, é uma sensação bastante prazerosa. Tenho morado mais ou menos nesse espaço. Não era nem sobre isso que eu queria falar, mas pelo menos meu cérebro está bem relaxado diante dessas flanadas despreocupadas. Abri o arquivo querendo falar sobre o desprezo que passei a sentir pela Ironia, que hoje atravessa tudo, e me atravessou, então é um pouco de desprezo por mim mesmo. A Ironia que é diferente do Humor, embora parentes. Lembro dos meus primeiros risos, talvez com Asterix — o riso sobre um texto bem elaborado. Olho ao redor e tudo é uma Ironia pesadíssima. Mas tudo bem também, é o que é. E “tudo” é uma palavra que eu poderia facilmente parar de usar já que não acredito nela. Essa decepção me deixou mais sério apenas, e isso pode ser bom. Não li David Foster Wallace, mas a sua biografia me cativa. Porque é claro que o cérebro dele também pediu arrego (e o fato dele ter deixado um monte de livros antes não faz a menor diferença, porque um cérebro pede arrego de jeitos e modos diferentes, o arrego é o mesmo). O que eu gosto é da descoberta dele quando diz “você vai parar de se preocupar com o que os outros pensam de você quando se der conta de quão poucas vezes isso acontece”. O blog, até ontem, começou nesse espírito. Com pouco discurso defensivo, aquele tipo onde cada reflexão precisa vir armada contra todos os pontilhões dos argumentos contraditórios. Não é bem por aí que eu quero caminhar. Algumas pessoas acham que eu tenho uma aura meio de mistério, e eu acho isso bastante engraçado. A imagem externa da gente. Embora eu entenda, porque a vagueza e as reticências (o pai da Fleabag), junto da intempestividade inflamada do palhaço, não contribuem pra nos colocar em uma situação de controle e segurança onde: eu sei quem aquele cara é. Eu não poderia me importar menos, mas claro que a gente se importa, ou não estaríamos vivendo juntos.
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Eu pensei em deixar o nome desse blog em mistério
Eu pensei em deixar o nome desse blog em mistério, Até Ontem Não, mas daí eu pensei também que não é sobre mistério todo o seu princípio. Quer dizer, sempre é, mas não é pra ser. Então a história é que eu estava em São Paulo, e procurava um apartamento pra alugar, não lembro o ano. Não faz tanto tempo. Era no bairro da Liberdade, e a rua era curta, em formato de vale, uma travessa entre outras duas ruas que ficavam mais elevadas. Então eu pensei que ali poderia alagar quando chovesse. O prédio era simples, antigo, e na calçada em frente havia um velho sentado em uma cadeira. Eu cheguei pra ele e disse:
— Essa rua inunda quando chove?
— Até ontem não — ele disse, sério.
Eu ri, ele não, e essa frase nunca mais saiu da minha cabeça. Ela diz muito sobre muitas coisas e fez um enorme sentido pra cá. Eu poderia explicar melhor esse sentido, e talvez já tenha ficado um pouco claro. Tem um pouco de Metamorfose Ambulante, sim, e pra mim é uma frase extremamente protetora em alguns sentidos. Se você chegar aqui amanhã, e ler esse texto de ontem, ele pode não ter mais validade alguma, e isso me interessa. Não que não tenha validade, mas pelo menos ninguém vai poder dizer com certeza que ele ainda é eu. O título vai me defender. Eu gosto disso. Eu gosto da leveza eterna que isso gera. É um pouco de escudo, talvez seja, mas não só isso. Eu estou o tempo todo mudando de opinião, olhando as coisas por perspectivas diferentes, então eu gosto e quero deixar essa abertura como um princípio. E dar sequência a algumas coisas que eu venho planejando por aqui.