Jo era o seu nome. Jovem ainda, boas pernas. Quase atraente, especialmente para a vaca que o acompanhava, para quem Jo tomava o cuidado de estar sempre não tão longe de um pedaço de mato e uma torneira de água pública. Jo escolheu chamá-la apenas A Vaca, e depois acabou Ava, porque Ava gostava muito de jardins e Jo gostava muito de cinema. (A mãe de Jo também se chamava Ava, o que contribuiu também, mas a história dela fica pra mais adiante.) Quando o sol esquentava demais, e havia a sorte de terem o mato e a torneira perto de uma boa sombra — como era a de agora, uma paineira barriguda onde Jo posicionou um tijolo furado e sentou, com os joelhos no queixo —, o rapaz geralmente gostava de observar o maxilar de Ava pra cima, pra baixo e pros lados, o mastigar perpétuo, e ela o olhava de volta e havia uma grande dúvida no mormaço das cigarras — o som favorito de ambos — sobre quem dos dois achava o outro mais peculiar, pra não dizer esquisito, por causa dos meandros infinitos da evolução. Jo tinha pouco a ver com Ava, e Ava com Jo, mas naquelas refeições e hidratações eles se sabiam mutualmente úteis. Ava mastigava, enxotando as moscas que tentavam penetrar o seu dorso de chocolate. Uns espasmos de altíssima precisão. Daí fazia um qual é com a fuça, jogando o cabeção pra cima.
— Vou pensar, Ava.
Jo tinha concluído, por algum instante lá atrás quando encontrou Ava em um resto de laticínio abandonado, que ela era um bicho de sorte, já que se não fosse por Jo, Ava teria ficado com a corrente ainda sangrando a canela posterior esquerda, inteira coberta de umas lesminhas esverdeadas cheias de fome, subindo pelas tetas e fazendo um estrago tão grande que até o veterinário a quem Jo foi pedir uma opinião sobre a saúde de Ava teve que ser contido com uns razoáveis rasgões de camisa, já que o sujeito dizia ter estudado pra isso, e ele sabia que o melhor era mesmo deixar a espingarda fazer o trabalho dela, e que Jo largasse de uma vez o seu colarinho porque a dor que a Ava estava provavelmente sentindo — ele que era O Veterinário e não A Vaca — era mil vezes maior do que um sacrifício breve no meio da testa. Mas Ava fez que ainda se amarrava nas próprias tetas, e Jo mandou o veterinário à merda. Depois, descobriram no caixa de um mercadinho que o sujeito nem era veterinário, era um eletricista chegado há pouco com uma afeição maníaca pela vida de rancho.
Ava continuou manca da perna esquerda, mas a ferida fedeu, escureceu, fez casca e caiu de repente no acostamento de uma rodovia, igual uma jaca madura. Naquele dia, a Ava deu pela primeira vez um galope em frente a um açougue, mostrando o bundão independente, e construiu-se, entre ela e Jo, algo que talvez algum dia poderá ser chamado Amizade. Ou a sorte de Ava, agora, era apenas a mastigação, as caminhadas mansas, a água fresca e aquela figura magra de braços longos pra quem ficava a parte monótona das decisões práticas. Ava gostava apenas de comer, beber e se deixar levar. Quanto a Jo, ele sentiu pela primeira vez o que deveria sentir alguém que passa pela experiência quase santa de devolver a vida a outra pessoa. A sorte de Jo era a companhia de Ava. E quando os dois viram o lambe-lambe colorido d’O Ministério da Solidão, em letras de impacto amarelas e uma pintura cativante de um círculo de pessoas cirandando “vem pro Ministério você também”, Jo decidiu que o caminho até lá deveria ser feito com a Ava junto, assim meio saltimbancos. Porque mesmo no sujeito sem nenhuma fé ainda há algo que mantém o coração bombeando sangue e os pulmões fabricando oxigênio.
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