Mutto

Eu não falo, eu não escuto, os meus cabelos queimam um fogo constante e vermelho o que me gerou obviamente apelidos como fiat lux, faça-se a luz, e assim fui feito, e também colocado em um circo de atrações bizarras, e apagam a luz quando eu entro. Eu imagino que os camarotes vão à loucura, tenho nem um holofote sobre mim, porque o clarão da chama é suficiente pra deixar exposto o meu corpo muito forte e esguio e elástico, que salta de bancada em bancada à base de chicotinhos. Eu sei que o que todo mundo gostaria de me perguntar é se o fogo não dói, como o couro do meu crânio resiste à tão alta temperatura, se as coisas não derretem ou vão rápido à falência, se os órgãos continuam a trabalhar bem, se os olhos mesmo continuam a ver, porque eu não sei se vocês sabem mas um olho é uma extrusão do cérebro, é um pedaço aberto, uma pequena caverninha direta aos miolos moles abaixo do osso. Isso é ciência. Perguntam qual a diferença entre andar embaixo de um sol quente ou na alta calada da noite, se preciso abaixar ao passar pelos batentes pequenos de madeira, ter atenção com bebês ou idosos, qual a distância entre a minha boca e as bochechas das pessoas, se o que eu falo é capaz de fazer atravessar o fogo para os cabelos alheios, e principalmente há alguma relação entre a combustão, essa espécie de longa chaminé de estrada, e o fato da natureza não ter me dado o componente genético da fala e da escuta, e se no fim os meus cabelos queimam porque é preciso fazer o excesso de energia sair por algum lugar, essa é a constante básica da natureza, que mantém porosa o equilíbrio das equações, porque no fim tudo é mais ou menos um mais um e só há uma resultante possível. Bem, eu não me importo com nada disso. Sim, é preciso alguns cuidados básicos. Eu não tenho muito dinheiro, então perder algum objeto ou móvel ou utensílio é sempre um prejuízo, se a coisa derrete, especialmente nos trailers e nos picadeiros baixos, porque além da minha segurança claro existe a segurança do público que é no fim quem paga as minhas contas e coloca comida no meu prato. Quero dizer, eu entendo muito bem de perspectiva. Quando você decide mudar a sua vida de uma postura de percepção para uma de perspectiva, é especialmente fácil compreender como os cabelos em chamam atraem pessoas, porque até hoje não apareceu ninguém igual, pelo menos não nesse continente ainda que eu não tenha nunca viajado muito. Meu avô, cuja cabeça ao contrário era careca e gelada, chegou a balbuciar umas vezes na cama da morte que houve uma gente em Atlântida cujos cabelos queimavam também, mas que o continente, esse procurado até hoje, foi coberto por água, então na verdade nunca saberemos, jamais saberemos, existem coisas na história que simplesmente não se sabe, nunca se saberá, e é preciso simplesmente engolir isso. É claro que não dói, porque o fogo nasceu comigo. Nos tornamos muito íntimos e amigos. Entre eu e ele há sempre uma intenção de amor e carinho. Colocar essa intenção foi pra mim como descobrir a grande chave universal da vida eterna, se não eterna da paz, da alegria e da sobrevivência. Não sorrio porque não tenho boca, mas rodopiar no meio do picadeiro em verdadeiro escuridão, enquanto da minha testa sobe um São João inteiro, que corre pelas praias do litoral durante as festas, as que reúnem pessoas ao redor da música, e sobem juntos os balões de papeis coloridos cheios de ar quente enquanto se dançam as quadrilhas e os casais se apaixonam e se amam mesmo ali pela areia esperando que nasça o sol do novo ano que é, adivinhem só, um grande fogo. Sinto-me em paz com esse elemento elementar que brotou em mim vindo de tão longe, e quanto fogo deve haver na fundura do espaço que igual a Atlântida nunca, nunca saberemos. Eu nasci, cresci e morrerei no circo. Esse é o meu espaço possível. Os pneus murchos, os vira latinhas, os pernilongos, o barro dos dias de chuva, que aliás obviamente sempre também é uma pergunta E essa cabeleira, apaga em dia de chuva? Não, não apaga. Vocês imaginam uns desses flares de sobrevivência, que as pessoas acendem embaixo do temporal das praias em busca de socorro, e me digam se aquele fogo não se perpetua na ponta do braço esticado, até claro que acabe o seu combustível. Os navios passam pendurados no varal do horizonte, cheios de cassinos e álcoois, e os socorros passam porque, convenhamos, não é trabalho ou dever de ninguém salvar ninguém. Penso o que eu falaria se tivesse boca, o que eu escutaria se tivesse ouvidos, e eu acho que eu ouviria primeiro o crepitar do fogo, é claro, porque a única coisa que falta é o seu ruído, os pequenos estalos de madeira, o cheiro do eucalipto, o pipocar das pinhas, e acho que provavelmente eu pediria primeiro um brinde ao ruído do fogo, um plimplim na beira da taça pra homenagear essa criação tão maravilhosa e quente e vital que todos os dias eu desejo agradecer, e nunca há tristeza, jamais há, mesmo. Minto, claro que há, mas não me importa. Eu poderia dizer que minhas lágrimas são fagulhas e o meu berreiro é um indiano em um espaço confinado soldando o metal com uma bomba relógio de oxigênio nas costas, que minhas lágrimas são descartáveis como ele, mas a verdade é que elas são iguais a todas as outras, de água salgada. Trabalhei com estaleiros, fiz cargueiros e navios de suporte à plataformas, tudo antes do circo, e tenho lembrança do acidente que matou dez deles. Eu não falo, eu não escuto, os meus cabelos queimam um fogo constante e vermelho.

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