Vanucci

Ali pelos altos de Santa Tereza onde a mudez é proibida, o Calábria Carioca servia as massas às massas que há muitos anos haviam visto o litoral brasileiro pela primeira vez, a muralha verdejante dos hinos, os coqueiros cheios de pássaros ainda sem nome, vindos da Bota e de suas cercanias, em que havia beliches, a xepa e as alegrias e dores dos conveses. E claro vinha também o vinho, os ébrios, os que não souberam novamente fazer dinheiro, e que largaram o novo mundo pelas ruas, no porto, nos trabalhos que encurtam a vida. O pequeno Vanucci vira o pai nos botequins das barcaças de Niterói, e cresceu por ali vendo a mãe agachada junto ao vaso, a cinta rodopiando junto aos lustres, e muito canto e gritos ali onde a mudez era proibida. Quis logo ser mágico, vestir-se de preto e branco. Foi a alguns jogos do Botafogo, chegou a ter um retrato de alguns palmos do Dinamite. Conseguiu ser garçom, no Calábria. O pai lhe deixou um velho alaúde. A mãe lhe deixou a força das ressurreições. Muitos anos entrando e saindo de uma pensão ao pé do morro que possuía um piano deram três qualidades, três raízes em Vanucci: a música, a magia e o servir. Ia-se ao Calábria pra ver o Vanucci. Quem vivia nos calores das calçadas, no forno de janeiro, nas pequenas negociatas por detrás dos mostruários de roupas, os jogos de caixinha e caixeta em busca de otários, não havia jeito senão tornar-se um pouco mágico, ser bom com as mãos, com olhos, e pros almoços e jantares do Calábria era tudo isso. Velhos, adultos e crianças nos polpetones, azeitoninhas, o pão da casa, o portifólio de massas que somente uma velha lá atrás do casarão sabia, a velha que mais ou menos adotara o Vanucci mas também todos os outros, contanto que lhe apalpassem os peitos de vez em quando no meio da madrugada. Entrava-se no Calábria vindo das derrotas, de uma manhã mal sucedida, o dinheiro perdido nos cavalos e no mercado de lanchas, as mulheres muito mal satisfeitas excitadas pelas mão do Vanucci, que servia o vinho, tinha um sorriso, e cantarolava baixinho uma barcarola nos pés dos ouvidos, e toda a mesa era molhada de sugo e gargalhadas.

— Faz voar, Vanucci!

Hahaha! ria o Vanucci. Fazia-se de tímido, negava, ainda não era hora. Faz voar, Vanucci! Mas como é possível minha gente, não é coisa que se faz todos os dias, requer energia, concentração, ainda vão me mandar embora. O próprio dono do estabelecimento, rindo pela ânsia do ouro, o guacamole, berrava mais alto Faz voar, Vanucci! E o que se via no Calábria era coisa que nunca se acreditava nos postos, nunca se tinha certeza exatamente sobre o limiar das coisas, e diziam Já viu o Vanucci em ação? Eu já vi, Um tio meu viu, uma prima comeu o Vanucci atrás do casarão, enquanto apalpava os seios de uma velha que apareceu assim do nada. Faz voar!

Vanucci sentava ao piano no meio do salão e puxava as canções de pequeno. Pedia um Lá maior, Lá maior! E imediatamente o garrafão de vinho verde entubava um Lááá, com a boquinha entreaberta e risonha, acompanhado por dois xotezinhos de Dreher que pareciam meio perdidos por ali ainda da cantoria passada. Um Sol! E o Martini rodopiava como Fred Astaire na lua nova prateada, sacudindo a azeitoninha que desafinada lhe pisava sempre os bicos dos sapatos. Margaritas, rums, sodas, bourbons, negronis, limonadas suíças, sucos de todas as frutas, melancia, abacaxi, abacate, com ou sem leite, os refrigerantes do interior bem adocicados, ipas, pilsens, malbecs, sauvignons, e vinha mesmo a própria Miranda dançar nos dentes do Vanucci, lembrando a portuguesinha com quem Vanucci namorara adolescente pelo Téjo e que lhe amassara o ventre por todos os lados. Agora o Coro! cantava Vanucci, e olhava pras prateleiras do ladrilho ao teto, que ocupava todo o atrás do balcão. O coro! Van, Van, Van, Van, como a quinta sinfonia, primeiro os baixos, os barris gordos de pescoço largo, depois os tenores, os licores finos, então as contraltos, as pingas de alambique ali de Minas Gerais ou Parati, por fim a frequência aguda que ouvia-se quase lá pelas barcas das lindas sopranos vindas da França, carésimas, especiais, trazidas por entre a proteção da serragem, e que soltavam gritinhos de Van, Van, Van, Van, arrematando o compasso.

A alegria ao redor era imensa e Vanucci quase sentia-se na terra que nunca pisara. Da pequena abertura da cozinha, o único emputecido era o holandês da copa que pensava por dentro adivinha pra quem vai sobrar lavar toda essa baderna. E gritava Cala a boca Vanucci! Cala a boca Holandês, gritavam as massas, que saíam do balcão quente todas excitadas, tagliatelles, ragus, rigattonis, trofies ao pesto, lasanhas, brodettos, tiramisus, tortellinis, caponatas, querendo ser imediatamente devoradas, mastigadas, e então dormidas no quilo das tardes, no entretelas do trabalho matando o tempo, na graminha da boca, na espera das seis, mas pelo menos comemos que foi uma maravilha ali no Calábria, como sempre o Vanucci deu o show de sempre, e hoje parecia até mais entusiasmado do que nunca. Talvez porque fosse aniversário em algum lugar, alguma data importante que somente ele sabia, a data da alegria, da chegada, ou porque ele sabia que justamente a mudez era proibida e Vanucci era garçom, mágico e maestro, três sujeitos das regras e dos métodos sérios. E que também no Atlântico existem as ondas, e quando você se aproxima é inevitável vir sendo mexido pelo balanço do mar, os picos o os vales daquela frequência salgada que entra pelo coração dos que a desejam.

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