Mutto

Desenhei o Mutto em completo silêncio, o vídeo é só o lo-fizinho de fundo. Respeitei esse silêncio, ao invés de ficar enchendo linguiça com alguma cascata. Como eu já tinha dito uns atrás, o espírito do dia influencia o desenho do dia, então a personagem, claro. Em dos capítulos Johnstone faz um panorama histórico das máscaras, no mitologia das culturas. Há sempre essa postura de respeitar a máscara quase como viva por ela mesma, e claro necessita um pouco de fé e jogo pra comprar essa ideia. Não me interesso muito por teorizar em cima disso, mas a questão de respeitar que Mutto é silencioso achei válido. Tive uns meses atrás o prazer de experimentar no palco o trabalho de máscaras e foi muito bom, com a turma do encena. Ainda que eu tenha um pouco de preguiça com a sensibidade demais, e mais vontade de escrachar, é um trabalho muito bom pro corpo e expressão. Uma boa introdução ao palco, porque não existe quase timidez sem o rosto exposto. Lembro da frase do Nelson Rodrigues, que só acreditava em quem ainda enrubescia. Achava bonito, e meio que concordo. Isso me incomoda um pouco, na busca pela tranquilidade independente de expressão, na segurança de não ficar nervoso ou ansioso diante do público, o que as pessoas testemunham da sua arte: dá impressão que passa por alcançar um ‘o que os outros pensam não me atinge ou não me faz diferença’. Em um endurescimento de uma cara de pau que eu entendo válida, e talvez necessária, mas que pra mim é muito difícil. Acho que isso em geral queima o filme da arte, onde a maioria parece meio blasé. Mas esse bláse parece um pouco essa conquista de armadura, então até que sou compreensivo. Parece difícil conseguir as duas coisas, a proteção da sua criação e ao mesmo tempo manter-se poroso e aberto às pessoas ao redor. Por certo é um jogo delicado.

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