Bo Ling

Bo Ling foi feito com má vontade em um dia de má vontade, e seu sentido desanimado trouxe o paradoxo de um tema que é talvez o tema que mais esmaga toda minha existência, o tema da solidão. Lembrei imediatamente (lembrei não é a melhor palavra), pensei mesmo, porque ela anda comigo há um tempo, a Jo Cox, do parlamento britânico, assassinada por um cara que de certa forma era o próprio objeto por quem Jo lutava, ou fruto dele. Bo Ling me parece um incel, mora com a avó, de quem recebeu um suéter tricotado. Ele passa seus dias na pista de boliche, talvez um pouco de Walter Sobchak sem comédia. O seu desenho fálico diz algo, a pele azulada como morta e fria, a bola de fogo o próprio Sol nas mãos que pode ser tantas coisas, tantos desejos ou vontades mortas. Antes de eu entrar por essa experiência de personagens espontâneas, eu tinha um mural gigantesco em que eu minuciara a solidão, e a ideia de novela era em volta disso, um pouco cômica mas com lastro dramático. Os papeis da Jo Cox, tudo pelo qual era lutara, as iniciativas pelo combate à solidão que lá e imagino que logo por todos os cás possui ordem quase epidêmica. E as pessoas morrem, o coração apodrece, especialmente a velhice, e eu não consigo muito pensar em um velho solitário sem vir as lágrimas, e as pessoas na rua. Lembro de ouvir Maria, Maria do Milton e sentir uma coisa na garganta muito ruim. Que diz muito bem sobre o espectro da mulher. Penso o tempo todo nessas mulheres e nesses homens distantes, aqueles que quem sabe andar na rua conhece muito bem. Acho que sinto a solidão dos homens como mais dolorida, porque eu sou um, mas em geral acaba passando pra todos os seres. E como essa solidão se descontrolada pode ser o canteiro das piores maldades. Não mergulho tanto nas cidades porque não é uma dor muito interessante pra se sustentar, mas os milhões anônimos, gente que se vê na rua, é tudo tão triste. E os jovens que morrem, aos cantos. Dizem que sentir dó tem uma raiz de prepotência, ou narcisismo, como se você por dentro tirasse as próprias conclusões de que aquele ou aquela desconhecida sofrem, ou têm uma vida muito merda, o que às vezes não é verdade, e é preciso tomar cuidado com as ilusões. La Strada, do Fellini. Mas eu sempre senti muita dó mesmo assim, ainda que a gente vá armando uma couraça, especialmente na metrópole. As coisas não podiam estar assim, e por isso que a Jo me encantou tanto. Não vou citar ela no trabalho, não sei, mas ela anda comigo e tenho um pressentimento de que em algum trabalho ou trabalhos futuros ela vai ser muito importante pra mim. Incel é uma figura que me intriga. Algo me faz compadecer por eles, e em geral acho que é um termo pejorativo e simplista demais, sexualizado demais, pra um problema de alta complexidade social. Talvez por eu saber o que é solidão, por ser homem, e por conseguir imaginar muito bem como o ressentimento e a amargura podem destruir a alma de um. Isso é mais claro que água. Acho que precisamos de mais frentes atentas a esse problema. É um trabalho de mutirão. Chove em Porto Alegre, forte. Me sinto tão bem, tão feliz. E a gente quer passar isso pra frente, mas sabe que na verdade cada pessoa tem o seu tempo e a sua decisão. Sempre defendi a tese de que a pessoa deprimida é no fundo no fundo tremendamente apaixonada por todas as coisas e por tudo, pela vida, e pra ela tudo é sensível, tudo é tocante, e vem então aquele peso de não poder abarcar tudo e que o tempo pra isso é finito. E se desiste. Pensar demais e sentir demais é meio que obviamente explosivo, então é preciso cuidado. Não sei muito bem quem lê isso, mas peço desculpas por às vezes pesar a mão. Não tem outro jeito, às vezes sai o que sai. A coisa do trabalho da vida ser um ‘mutirão’ eu ouvi da boca do Ferreira Gullar, grandes momentos de orgulho. Na Flipoços, onde ele foi patrono. Um sujeito perguntou da plateia como ser poeta, porque ele não conseguia, tentava, tentava, não conseguia, não saía a poesia. O Gullar teve um faniquito, disse pro homem que não era pra todo mundo ser poeta! Precisava pedreiro, contador, balconista, piloto. E que a vida era um mutirão, por isso.

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