Jolenon, o Airoso

Ah o ar! As nuvenzinhas, as fumacinhas, os gases, os seres invisíveis nórdicos embaixo das pedras e quase não tocando os musgos com as botinhas, bebendo dos pequenos orvalhos o suco elementar, da alegria, da bondade e do bem-fazer. Ah o ar! E havia os grandes pequenos bailes também, onde os rivais pavonescos sorriam mas torciam pelo tropeço, porque as plumas valiam a glória e a cadeira anual do céu, e mesmo entre os serezinhos do ar existem aqueles que trazem do passado o peso das pequenas invejas que corroem a alma aos poucos como ferrugem mesmo, como era Jolenon, o Airoso, que cresceu ali pelo meios dos musgos e dos cogumelos mágicos, cheio das cores, um tanto retardadinho em comparação com os colegas da sala, mas muito colorido e alegre, e cresceu ali pelo meios dos penas, e da música e das ocarinas de argila, o som que anunciava esse povoado da nossa atmosfera. Muito deixado de lado, fez logo a amizade com os animaizinhos que não falavam, mas que faziam os ruídos sinceros e ensinavam coisas como saltar e agarrar insetos, ou cavoucar a terra pelas minhocas graúdas, bugigangas da terra, às vezes um anel, uma pedrinha, uma moedinha. Embaixo de um velho tronco podre, Jolenon fez sua toca. Cuidou da luz de entrada, fez questão da mesa ensolarada, o subsolo mais frio dos víveres e compotas, muito bem organizadinhos em gavetas nomeadas, as etiquetas de letra bonita feitas a pincel. As geleias, as amoras, os picles, o pão fresco, e foi se enterrando até inclusive longe do ar, enquanto os Airosos erguiam imensos edifícios de jacarandá, ipê e sibipirunas, cheios de portinhas, janelinhas, varandas, pontes levadiças, teleféricos de galho em galho, e as copas enfeitadas cheias de festa e glória, e lutas também pelos namoricos, a procriação na orgias livres da nudez, porque o ar era infinito como era aquela populaçãozinha. Jolenon logo descobriu os prazeres das ervas, e com o seu canudinho de bambu, soltava pela janela as nuvenzinhas lisérgicas que iam lá pro alto invisíveis, ou não tanto, porque uma Airosa, uma senhora velha já meio cega, que cuidava na coleira um besourinho de três olhos, ela morava no topo do tronco podre sentia o aroma e gritava sempre pelas manhãs Vai trabalhar vagabundo é esse cheiro o dia inteiro, não há quem aguente! E quando o Ar dormia, Jolenon saía da toca e ia perambular pelos vales, saltando de uma planta a outra, colhendo amostras e todos os tipos de cores, unguentos, bases, sonhando com a glória do grande baile.

Atrás de uma rocha, fez um pio sôfrego o animal, e era um pavão pelado, já todo sem as penas, e Jolenon se assustou.  Muito desacostumado ao sangue, achou estranhíssima a criatura que disse Eles veem buscar minhas plumas, e é sempre quando não se vê nada, e a dor é muito grande, e eu tive filhos, tive cinco pavãozinhos muito espertos, dois foram fazer Medicina na Floresta Alta, um é engenheiro de açude e um casal já é rico. Jolenon agarrou o pavão e colocou no colo, porque o pavão já despavoado não voava e quase mal andava. Antes de desmaiar ainda disse Os outros, os outros.. E um pouco mais adiante Jolenon viu o vale da morte, as criaturas gelatinosas rastejando pelo barro, já cheirando mal e azedo, e o ruído era oco, pra dentro, um silêncio mórbido. Jolenon aterrorizado olhava os céus, respirava o ar e sentia dentro dos pulmões uma agulha, que transpassava a garganta e ia parar no intestino, que já amolecia as fezes. Jolenon cagou-se todo na calça. Teve vergonha, correu de volta ao tronco com a criatura nos braços. Naquela noite, remexeu os baús, abriu as coleções de todos os anos, as pedrinhas, as sementes, as folhas, e os Airosos o chamaram Jolenon, o Maluco. No chapéu, fez questão de deixar sempre uma pluma de pavão fresca, ainda com um pedaço de carne na ponta, que molhava de sangue a aba e fedia ainda mais. Cheirou mal, fez as aglomerações abrirem, furou filas. Ganhou coisas de graça, deixaram comida na frente do tronco. E no vale da morte, Jolenon passava agora seus dias. Abria as jacas, removia a cola poderosa e ia tapando os corpos com as lantejoulas, as figas, os caroços, buscando as cores originais impossíveis. Os pavões, meio moribundos, olhavam com os olhos mortos ainda vivos, aquele ser do céu trazendo as coisas de volta. O voo, não mais, mas os menos destroçados seguiam Jolenon como a um deus, que ia tocando sua flautinha de nuvens à frente, no seu pequeno baile subversivo. Jolenon vestia os galões dos militares, e tinha agora os seus soldadinhos salvos, prontos para a batalha. Houve a Guerra entre Ar e Terra.

Deixe um comentário