Axel

Axel, que havia sido Lexa, era um homem de estrutura grande, e os seios eram seguros pesados por um sutiã costurado por ele, e por cima um vestido de chita roxa e um cinto de couro largo que ele também havia feito, porque Axel tinha domínio do que era feito pelas mãos, além do domínio do que era feito pelo corpo, e domínio do que era feito em uma selva onde se procurava o ouro, o feijão e o gozo. A selva amazônica, o triângulo entre Manaus, Roraima e Caracas, onde um sujeito como Axel servira desde menina, e por isso levava nas costas um grande machado de aço profundo, que ele havia encontrado no mercado do Rio Negro. O dono que o vendeu disse Esse é o machado do Boto, que foi recuperado de uma chalaça afundada com quatorze pessoas, carregada com castanhas demais, e daí emborcada com as rajadas que ali na vastidão daquelas águas são fortíssimas, e fazem bons marinheiros, ainda que o marinheiro daquela cabotagem não havia sido assim tão bom demais. Axel comprou o machado por alguns mirréis, e o cabo foi feito de madeira dura, parecida com aroeira, e Axel com os peitos fartos e sentimentos mortos transformou em um abridor de picadas e estradas, embora ainda não o tivessem capturado pelas cabeças de mais de duas dezenas de homens encontradas perto de São Gabriel, o canteiro que chamaram Pol Pot, como se Axel depois fosse uma espécie de ditador cambojano, mas Axel não entendia de política e muito menos de estratégias de expansão territorial, mas entendia de homens e entendia de árvores derrubadas. Primeiro ele pensava que queria também os seios derrubados, removidos por uma quantia que ele nem de perto possuía, e os hormônios, e a vontade dos pelos, dos músculos, da voz mais intimidadora, e foi de um gringo simpático, um norueguês que vencera já o Tapajós de caiaque, que ele ouviu o plot de Dog Day Afternoon, e viu também pela primeira vez o rosto de Al Pacino bem tenro, aquela cara zolhada meio abobada, que ele achou bonito, mesmo na tela pequena do celular. O norueguês tinha mandado pra que Axel engolisse o sêmem, e Axel o fez, e foi com a boca melada que ele disse, Aqui quem manda é o ouro, as pequenas pepitas sob as caixas registradoras, nos dentes, mas também as igrejas, as escolas, as crianças bem educadas e alegres nas matemáticas, nas vontades de sair ou ficar, no que vem e no que é firmado pelas telas de informação. O norueguês parecia querer saber se Axel tinha já um tesouro escondido, já que tantos homens e tanto couro cozido, e tantas doenças, tantas erupções, e Axel olhava pra fora, sentia que não tinha o direito de arrancar a cabeça de um homem loiro e estrangeiro e isso ele não entendia exatamente por quê.

— No filme esses duas moços assaltam una tipo de banca. O Al Pacino quer o dinheiro parra o namorado remover o pênis, que é a outro ator que não lembro o nome… O Fredo! Godfather, conhece?

Axel disse que sim, mas não lembrava do rosto. Teve essa ideia então de coletar ouro, porque era o seu ouro, porque Axel havia tido avós e avôs e bisavós que eram todos desse mundo, e ouro obviamente saía da terra, o que caía em contradição com todas as noções de propriedade e terra que era o que movia o mundo (mas isso já é coisa do narrador e não de Axel, ainda que os dois se amem). Na alcova de Axel havia a plaquinha do “Traseiro do Mal”, e por algum motivo era pra onde iam todos os mineradores, empreiteiros, gerentes e também índigenas armados, gente que não temia de modo algum o mal, pra quem o mal era até sinônimo do próprio êxtase que era aquele bordel maldito. Os trabalhos noturnos. E quando Axel, durante o dia, se via no meio da mata, e cheirava aquele perfume doce que sobe da terra molhada, e úmida tanto pelas copas quanto pela brisa ribeirinha, quente, ele lembrava o quanto lhe fazia falta o silêncio e a ausência da fala e dos gritos e das partilhas, e sabia que existia uma lembrança de menina em algum lugar, ainda que invisível e disforme por já três décadas ou talvez fosse mais. A terra era mulher, essa era a mitologia, e pra Axel isso fazia sentido. A terra, mesmo sem ele mesmo saber, permitia os nascimentos e os renascimentos pra sempre, a prova era a mata ao redor, as plantas, as cabeças enterradas. Axel Shining Axe Bad Ass, que confecciona os próprios sutiãs, e os vestidos e os cintos. A avó uma vez a ensinara bem criança a fazer uma linha com a fibra do Tucum, uma folha de palmeira. E avó sentava direto na terra, e mostrava como se partia a folha ao meio, a junção apertada pelos dedões e o puxão que revelava abaixo do verde uma teia de aranha vegetal, fortíssima a ponto de puxar os grandes peixes amazônicos, e as redes, que davam de comer a todos. Havia essa linha na memória de Axel, que era a linha do machado afiado. A linha do sutiã, das peças de roupa. Mas é claro que há muito mais história, nas curvas do rio, porque nem tudo era barbaridade, ou ouro.

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