Maestrônio

Tudo aconteceu no Espaço. Porque a Terra havia sido coberta pelo Vácuo, a ausência de atmosfera. A espaçonave Cubo, em que eu era o copiloto, ela era comandava pela cirurgiã Adelaide, uma australiana que havia sido tudo além de cirurgiã. Agora ela era Piloto. O Cubo era apenas nós dois, seria um outro tempo, muito mais a frente do que o de agora. Os grande estafes espaciais, aeronautas, eram já obsoletos. We got machines, nós temos as máquinas, e isso bastará. A missão, ela sim, ainda existia, talvez porque uma missão jamais possui uma superfície que se possa tocar, não é um objeto, mas um vetor. Nossa missão era alcançar o Atrito, a última galáxia, a última chave do Universo. A resposta estava no Atrito, e a isso fomos encarregados. Quero dizer, ela me fodia, eu fodia ela, no salão de jogos, em cima de todos os tabuleiros decorados por décadas e décadas espaço adentro, cada vez mais longe da Terra, que já talvez nem existisse mais, fosse apenas terra batida, ar envenenado e um resto de androides recauchutados. A sala tinha até um nome, Joy Division. Na testa de Adelaide e minha havia as cicatrizes em linhas dos sinais de rádio de Arecibo, o pulsar PSR dos Unknown Pleasures, o álbum que havia sido tocado na Terra pelos auto falantes enquanto o ar ia sendo gradualmente envenenado pra que se conseguisse enfim o último de todos os sonhos do Governo Racional, o grande Purge, o recomeço, a virada de mesa, um reset e uma nova criação baseada unicamente em planilhas Excel. Todos morreram em no máximo 5 dias, sob a voz de Ian Curtis. Adelaide e eu sobrevivemos, encarregados pelo Governo Racional de buscar o Atrito. Então seguimos nós dois, com a testa marcada como dois Klingons fantásticos.

A teoria pela busca do Atrito era ridiculamente simples. Partia da tese provada de que tudo em todos os tempos caminhava em direção ao Equilíbrio, e que o Equilíbrio era o estado final e começo de todas as coisas. A Humanidade provara isso com seus atos. Bem e o Mal, o fim Equilíbrio. A Guerra contra a Guerra, o fim Equilíbrio. Uma pequena bola de Bocha arremessada pelo longo corredor de cimento batido, acelerando com o arremesso e depois desacelerando lentamente, com a ação do Atrito. E enfim equilibrada, do lançamento potencial do jogador à imobilidade final, estática. Ou seja, estava no Atrito a resposta final. O Equilíbrio era alcançado pela força do Atrito. Mas e o Universo? E o Vácuo? Você arremessa um tolete de merda em direção à Vênus e um dia esse tolete de merda chegará lá. Não há Atrito. Não há Equilíbrio. Encontrar a origem do Atrito era a nossa missão. Então quando eu deitava na Joy Division depois do banho e Adelaide deitava ao meu lado, com a boca aberta embaixo do meu maxilar, as unhas pelas costelas, e ela dizia “Fome” enquanto já ia abrindo as pernas espumadas por cima de mim, e metia a testa cicatrizada na minha, e as pequenas fendinhas machos e fêmeas se completavam e abria-se o portal do Atrito cujo estopim ou pista de rota podia ser apenas o Amor Louco. Ou, se você procura a reposta para o grande mistério do Universo, precisa apenas se foder até lá. Talvez Deus fosse Ian Curtis, ou a mãe de Ian Curtis. Talvez Curtis fosse o Jesus do Espaço. Adelaide caiu pelo sofá da sala, sonolenta. Disse que queria um refrigerante.

— Quer ver um filme? — eu perguntei.

— Coloca qualquer porcaria — ela disse.

E blim-blom fez a campainha do Cubo.

— Uma boa tarde! — disse a figura quando abri a porta. — Tem um minutinho pra ouvir a palavra dos Maestrônios?

Eu tinha esquecido as pantufas, o piso estava frio e isso no Cubo era pedir pra tomar um choque, então talvez eu não tenha sido muito simpático.

— Boa tarde. Palavra de quem?

— Dos Maestrônios! — e a figura levantou a vasile de couro e apontou pro pequeno broche no peito. Dizia Maestrônio #1651234323, o que eu sem querer li algo como Mastercard e um número de cpf.

— Não queremos comprar nada — eu disse, e fui fechando a porta.

— Não, não, senhor, não sou vendedor. Sou um provedor. Parece que alguém aqui está a procura de Atrito, não é?

Fechei um pouco meu robe.

— Atrito?

A figura sorriu. Um pouco mais próxima da iluminação da porta, eu enxerguei melhor seu contorno. Corpo gelatinoso, um pouco réptil, a superfície marcada por um punhado de doodles, esses rabiscos que se faz ao telefone. Tinha o que parecia um conjunto de tentáculos maiores dos quais saía uma porção de cabos da finura de fios de ovos, e flutuavam ao redor da figura.

— Posso? — ela disse, sorrindo.

— Entre — eu disse, com um resmungo curioso.

— Querido! Quem é? — ouvi a Adelaide da sala.

— Ainda não sei bem querida.

— Um Maestrônio — a figura falou baixinho, se inclinando em direção ao meu pescoço.

— Um Maestrônio — eu falei alto, pra dentro do Cubo.

— Um o quê?

— Um Maestrônio? Diga que não queremos nada.

Eu me voltei pra figura.

— Olha meu senhor, não estamos interessados. Talvez um copo d’água?

— Não são os senhores que estão em busca do Atrito, o elo perdido para entender o nosso Universo?

— Como o senhor sabe disso — perguntei.

— Bem, é o meu trabalho, senhor. Não te interessa uma breve exibição das respostas?

E a figura apontou a valise, que era de couro velho.

Adelaide chegou, fechando o robe.

— Boa tarde — ela disse.

— Boa tarde, minha senhora. Maestrônio, ao seu dispor.

Cumprimentaram-se. Ele continuou.

— Estava explicando aqui pro seu… marido?

— Companheiro.

— Companheiro! Que eu trago comigo as explicações que vocês estão a procura.

— Você tem Atrito aí?

— Opa. Tenho sim, todas as variedades. Sexo, treta, discussão, trombada, acidente de carro, peido de elevador, nosso portifólio é ilimitado. Tenho inclusive provedor de nave espacial empatador de foda das galáxias.

E deu uma piscadinha pra nós dóis, com um olhão meio peixe-boi, ainda que alegre.

— Olha, o senhor vai me desculpar — a Adelaide disse — mas a missão aqui é coisa séria, precisamos chegar à galáxia de Atrito, recolher amostras, computar frequências, calcular e mapear todas as variantes.

— Sentiram isso? Sentiram? — ele perguntou pra nós, fazendo uma rodinha com as mãos mostrando nós três. — Sentiram o Atritinho?

O Maestrônio continuou.

— Minha senhora, não existe galáxia de Atrito nenhuma, isso é coisa de propaganda enganosa, igual quando transformaram o Guia Quatro Rodas em guia Michelin pra promover restaurante com jabá. Atrito aqui na região dá em qualquer quintal, é só pegar.

Eu e Adelaide nos olhamos.

— Acho que dar uma olhada em uns Atritinhos não é mal, né? — ela disse. — Não é como se tivéssemos tanta coisa pra fazer agora.

Os Maestrônios nasciam do ponto central do 8, o número do infinito. Esse era o Ponto de Atrito, e por isso eles possuíam tanta expertise em atrito. Os Maestrônios equilibravam o Universo e o Cérebro Humano. Habitavam essa região, melhor zona de guerra, onde jamais existiram dúvida alguma de que tudo era Uno, conhecimento que apenas os budistas haviam alcançado a beiradinha. Os Maestrônios sabiam que não havia nada de misterioso em Tudo, e que tudo era apenas uma grande cebola crua, em que um neurônio cerebral humano, multiplicado bilhões de vezes, dava forma a um Indivíduo humano, que por sua vez agia no mundo do nascimento à morte, olhando deitado na relva negra olhando o céu infinito, em que nunca jamais alguém poderia ser ateu, jamais, porque se se olhasse profundo aos céus até o ponto em que os pelos do corpo se eriçam e você sente no estômago a dor de todas as suas histórias, e que esse Indivíduo poderia ser saudável ou morrer como ele mesmo um neurônio sadio ou não, embora isso não dependesse de nada — esse Indivíduo era ele mesmo um novo neurônio do mundo, desse Universo acima, que é talvez um feirante, um mecânico de bicicletas, uma advogada. E que nessa advogada todo o ciclo se repetiria, e tudo faria sentido ou não, porque não importava.

— O Atrito é o combustível da Vida — disse o Maestrônio, projetando um powerpoint de produtos na nossa cozinha.

Compramos uma ou outra coisa. Pela janela, o Maestrônio entrou em sua motoquinha interestelar, e antes lacrou bem o baú da garupa. Nós o vimos, seu rastro de luz, sumir atrás de uma nuvem de poeira.

— Acabou o refrigerante — eu disse.

— Eu pedi pra você trazer do depósito ontem — ela disse.

— Preguiçosa.

— Imbecil.

— Eu te amo.

— Eu também te amo.

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