Axel foi um desenho peculiar e um pouco incômodo. Porque ele apareceu como um homem trans, então junto vem todo um emaranhado de lugar de fala, algo que eu prezo (mais em público do que nos clubes de comédia privados) e por isso tomo cuidado, mas que entra em conflito com duas gavetas muito concretas e lúcidas que existem dentro de mim, a da realidade e a da imaginação. A discussão é vastíssima demais pra cá (quem é da Escrita Criativa conhece bem a eterna discussão entre separar ou não o autor da obra), então vou pular pela superfície, como aquelas simpáticas aranhas de cachoeira. A narrativa ao redor de Axel apareceu bem instigante, bem tarantinesca, e com um alicerce sexualizado — o que talvez seja o ponto mais delicado, já que eu imagino que um homem trans só deseja no fim ser qualquer coisa além de qualquer estereótipo, por exemplo a vida pacata de um contador. A sexualização dos caras é provavelmente fruto da minha criação 90’s que eu coloco sempre em perspectiva, mas que a inconsciência do improv evoca sem partido. O improviso simplesmente não se importa. Ele provalvemente vai te fazer expor qualquer recalque reprimido, e se você tiver medo de si vai ter medo de improvisar (isso eu tô dizendo sem nunca ter feito improviso de palco, então não sei muito se é assim que funciona. Pelo que eu li, sim.). Mas por outro lado, a questão trans parte do sexo e do gênero, então acho que por um tempo a questão naturalmente circulará ao redor dessa frugalidade simplória. O que eu quero dizer, também, é que é bem mais difícil pra mim escrever com uma liberdade total, pesando a mão na sátira, quando a figura não é um homem branco comum igual eu, que é o mundo que eu domino justamente por ser o meu desde sempre. É um bocado por isso também que é muito raro eu desenhar mulheres nos cartuns. Provavelmente vou fazer 10 personagens homens e não vejo nenhum problema nisso. Não é que eu não me sinta no direito de fazer uma mina, mas me sinto desconfortável pra tirar o sarro, que é bem melhor se vier de elas mesmo. Isso na comédia, que é mil vezes mais delicada que o drama. Acho essa divisão até que bem saudável, cada um escrevendo sobre si e todos lendo sobre todos. Tem escritor malandro que fagocita os discursos em alta ao invés de ir apenas tomar uma água na coxia. Isso não quer dizer que se um dia me der na telha de escrever sobre alguém muito diferente de mim eu não vá escrever, vou escrever sim justamente pela gaveta sagrada da imaginação, e se alguém quiser me tomar a chave vai precisar de ordem judicial, que eu até aceito pois sou temente a lei e gosto da ideia de não ser preso. Mas acho meio difícil que isso aconteça. Acho muito difícil que eu tenha vontade de escrever algo que eu não sinta visceral e real na minha história. A vida do homem branco já é patética demais, e eu amo o espectro patético. Eu poderia escrever patetices pro resto da minha vida. Quer dizer, até visualizo um dia fazendo uma narrativa grande na perspectiva de uma mulher. Mas acho que precisa fazer sentido e estar de acordo com o que eu quero dizer. Enfim, a coisa tem que fazer sentido, apenas. Sempre é bom lembrar o mote do meu blog. Tudo isso eu penso até ontem e talvez não pense mais até o final do dia. Agora tenho dois continhos acumulados, do Maestrônio e do Axel. Vamos nessa. 2023 vai terminando e acho que o próximo ano vai ser incrível. Porto Alegre fica vazia nos recessos, o povo ou vai pra praia ou vai pra montanha. Bem gostoso.
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