Maestrônio

Tinha que adiantar o ensaio mas não tive pique, então fui desenhar mais um personagem. Ficou estranhíssimo, não muito humanóide que é o costume. Meio sci-fi, meio filosofia cabeçuda. Porém fez sentido porque tenho lido um bocado fascinado sobre neurociência. Talvez então tenha sido reflexo disso. É um desses for dummies, aliás uma coleção honesta que gosto muito. O nível de detalhe que já se conhece sobre o cérebro humano é uma coisa de maluco, não fazia ideia. Não sabia nem que neurônio era uma célula, digo fisicamente uma célula. Achei que era só uma explosão quase imaterial de eletricidade, algo assim. Mas ela tem o corpo, os raminhos, que acabou surgindo nesse personagem Maestrônio.

Esses dias voltei a ver uns cartunistas que eu gosto. Vi um desenho do gringo que eu mais gosto, o Edward Steed. É um sujeito low-profile, sem mídias, mas fez umas capas na New Yorker e tudo. Deu pilha de voltar a fazer os meus, até porque esses exercícios aqui vão bem pra fora do traço que eu tinha “conquistado”. Porque ainda que eu tente desenhar como se estivesse desenhando sozinho, falar junto, imaginar uns espectadores, tira a naturalidade. Enfim, tomei aqui como um experimento, e acho que depois de março volto aos cartuns mesmo. Saudade das punch-lines, das caras engraçadas.

O Maestrônio me lembrou o final do filme dos Simpsons, quando tem aquele chorinho mostrando o universo como dentro da bola de gude de uns etzinhos de um outro o plano. MIB também tem uma coisa assim. Eu realmente gosto dessa ideia e nem me parece tão maluca assim. Fui pesquisar se tem exatamente um nome essa linha filosófica, mas há coisas mais gerais, como Panpsiquismo, Teorias da Simulação, etc. Quero dizer, se cada nós humanos fôssemos o neurônio de um big cérebro. Você lê sobre neurociência e encontra mais analogias do que disparates, é engraçado. Se você tomar emprestada essa tese dá pra gerar um monte de paralelismos. Galáxias/lobos, história/memória, big-bang/parto, destruição de um planeta/aneurisma-câncer-alzheimer/a própria velhice. Como eu gosto de ver o mundo narrativamente, acho até ok, ainda que jamais será provado. É engraçado. Acho que vai dar um bom contículo, ainda que eu não pire muito em ficção científica. Voltei a pensar no Eça, e provavelmente o que eu quero mesmo é voltar pras minhas novelas cômicas. Ideia é que não me falta, só preciso terminar esse mestrado, fazer um detox acampado em alguma praia e entrar na pilha da diversão que eu sentia tanto. Pode não ter muito a ver comigo a ideia do mestrado aqui, mas com certeza ele me parece um movimento necessário e inevitável do meu percurso. Ele é definitivamente um mantra de liberdade e leveza, coisas que eu andava precisando demais. É mesmo um divisor de águas, justamente porque ele me ajudou a mudar uma perspectiva de trabalho — ou tem me ajudado a mudar — de peso, perfeccionismo e dureza. Vamos ver se isso se sustenta, acho que sim.

Deixe um comentário