Pedregulho

O palhaço Pedregulho havia sido o senhor Pedrini, dono de construtora, então ele já se sabia destinado ao limbo eterno, o hall da espera, porque todo palhaço merece o reino dos céus. Os bons palhaços, não de provocar graça, mas bons no cotidiano, os que não mataram alguém, bateram em mulher ou desviaram dinheiro de alguém que precisava mais. Muito mais lá em frente, Pedregulho descobriria que Deus não — não Deus, mas o chefe do departamento do limbo, o responsável por dizer “O senhor para lá, a senhora para cá, cachorro não entra, duas malas apenas, essa não é de mão”, e que era até muito semelhante ao balcão de entrada da construtora Pedrini — que Deus, esse chefe do limbo, não tinha nenhum senso de humor, absolutamente nenhum, tinha a cara amarrada, lombalgia e uma espécie de cajado (a única coisa mais ou menos bíblica que Pedregulho viu depois da morte por ali) com que ele batia no chão e vinha um anjinho muito bonitinho com uma bandejinha dizendo “Seu remedinho, Senhor”.

O senhor Pedrini tinha tido dois quase infartos, o primeiro na obra de Miami, o segundo na obra dos índios Kaiungu, o que gerara inúmeras milhas, infinitos estresses de estrada, porque o senhor Pedrini era desses donos de construtora presentes, que realmente gostam de ver a construção sendo construída com os próprios olhos. Ou seja, foram dois infartos dentro de aviões. Do próprio avião, um jatinho que ele comprara de segunda mão de um feirão em Estocolmo, e que ele mandara trazer de navio, porque afinal era precisa economizar em certas coisas. O avião não lhe trouxera sorte. Mas o banheiro era grande, o maior da categoria, o que ajudou nestes dois momentos de quase infartos, porque os seguranças tiveram espaço pra colocar o senhor Pedrini com a cabeça pra dentro do vaso sanitário enquanto ele vomitava e o médico particular do senhor Pedrini, que também era o piloto do avião, dizia “Não é infarto, é alguma coisa que o senhor comeu antes de embarcar”. Bem, o senhor Pedrini cansou de brincar de construir e decidiu que ia ser palhaço. Muitos na construtora já o chamavam assim, o que ele entendeu como um bom sinal. Pedrini fez uns cursos, em que ele não revelava sua profissão ou sua riqueza. Sentia-se mal em chegar no tablado e dizer “Sou dono de construtora, tenho um jatinho sueco, já sou naturalmente engraçado na empresa então talvez eu nem precise disso aqui”, enquanto ao seu lado estavam atores, artistas, desenhistas, dentistas, nutricionistas, enfim, ninguém tão rico quanto ele. Embaixo do Picadeiro, ele escolheu ser apenas Pedregulho, herança das pedras egípcias, fundação primordial de todos os construtores, da saudosa época dos escravos, agora cheios de parafernálias de carteira de trabalho, décimo terceiro, seguro saúde etc. O senhor Pedrini era um saudosista, mas o palhaço Pedregulho tinha os olhos bem arregalados apenas na realidade. Ele se sentiu um novo homem. Comparadas as duas roupas, Pedrini havia sido um modelo de yuppie, camisa azul e gola branca alta e dura, a gravata perfeita em nó simples já que Windsor era coisa de hippie, a geração anterior que ele detestara — mas que agora até amava um pouquinho. O Pedregulho tinha as roupas coloridas, alugadas em uma garagem que era metade brechó metade empório de ervas. Arrematava o palhaço uma gravata preta de plástico, uma peruca de mullets negros, e uma espátula de pedreiro que era a marca registrada do Pedregulho. Óculos de avó, dois brincos de plástico.

O que a turma do tablado não conseguiu arrancar do Pedregulho era como ele havia conseguido que uma pequena nuvem escura ficasse o tempo todo flutuando sobre ele, bem quadrinhos anos 80, e caísse uma chuvinha fria ininterrupta, daquelas de São Paulo também nos anos 80, até porque bem a época dos yuppies. Ou seja, o Palhaço Pedregulho estava sempre molhado, com frio e com dificuldades para que alguém sentasse ao seu lado. No circo, contudo, a atração ganhou ares. Palhaço Pedregulho, o palhaço que faz chover! As crianças o adoravam. Principalmente nas apresentações nos dias de calor, em que Pedregulho corria pelas tangentes do picadeiro espirrando água fresca nos camarotes, enquanto as crianças das famílias mais pobres gritavam das fileiras do fundo “Também estamos com sede, Palhaço Pedregulho!”. Pedregulho sorria, levantava a pá de pedreiro e tinha pequenos rompantes do senhor Pedrini, “Só o trabalho, pequenos, só o trabalho!”.

Pedregulho morreu no circo, uns meses depois da proibição de animais vivos. Veio a geração dos circos fantásticos, incrementados, elegantes. Aquilo entristeceu Pedregulho. Se viu sentado em seu trailer de piso vazado fazendo pequenas continhas na tábua da mesa, pegando no sono com a calculadora na mão. Embaixo do abajur, uma pequena construção feita de caixinhas de fósforo em que se lia uma observação à lápis “Eu só espero que o céu seja um pouco como os Estados Unidos”.

Veio o limbo. As crianças, o picadeiro, aquele lampejo de vida da fase palhaça tirou o senhor Pedrini da ida expressa ao Inferno. Quando ele chegou, com a sua nuvenzinha escura pairando sobre a cabeça, sentiu-se até bem confortável, porque ao redor o papel de parede era com desenhos de nuvens das mais variadas. Sentiu-se confortável pela primeira vez. Talvez fosse as cadeiras de plástico, o café quente junto ao balcão, os office boys segurando nas mãos uns capacetes esfolados. O som dos computadores, dos teclados, a simpatia das moças da recepção. A Grande Construtora Picadeiro, podia ser o nome ali. O chefe do cajado enxotava as crianças, dizendo que o limbo era só pra de maior.

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