Januário

Janvier chegou a Paris na friagem de outubro. Ele é brasileiro, especificamente das bordas do Rio de Janeiro, onde ele apenas nasceu e morou o resto em São Paulo. Sentiu-se paulistano, ainda que achasse aquela turma toda amarrada, especialmente na oratória. Bem no fundo da sua ancestralidade carioca, tudo que não possuía ritmo o incomodava. Lembrou quando criança entrou no primeiro Maracanã, e um homem enorme ao seu lado gritava fazendo graça na sua frente, pra cima de um zagueiro cuja lambança ele não vira e tampouco entendera.

— Mauro, o primeiro bonde recuperado!

Foi o berro do homem, e aquilo ficou em Januário. O nome de Janvier é Januário. Virou Janvier em Paris, quando o diretor da liga amadora de futebol de Paris, responsável por contratar Januário como locutor esportivo local, entendeu que Januário significava Janeiro e Janvier em francês é janeiro. Coincidentemente, Janvier chegou em Paris em outubro. O diretor queria um brasileiro na cabine de locução. Era fã do futebol brasileiro. Ele queria o swing da locução, a paixão. Tinha pegado birra do locutor atual, que era obcecado demais pela cultura francesa.  Vinhos, queijos, instrumentos de sopro, essas coisas. França ou swing, os dois não combinavam. Coincidentemente, o locutor de quem Janvier tomou o lugar tornou-se um famoso locutor da primeira casa de swing a implementar a locução de suruba pelos auto falantes, uma prática que excitava um nicho cada vez maior de clientes.

— Gastón avança pela linha de fundo.

A recuperação de bondes havia sido política de um governador paulista. O pai lhe explicou muitos anos depois. Um programa de governo pra recuperar da sucata a situação lamentável dos bondes de São Paulo. Saíra a manchete na Gazeta, sobre a foto de um bonde novinho: O primeiro bonde recuperado.

Sentado aos pés da Torre Eiffel, que Janvier achou menos bonita do que a da Paulista (apenas porque Janvier tinha se apaixonado uma vez por uma mulher cuja varanda tinha vista pra ela), ele sentia saudade de casa mas também não muito. Ele entendia muito melhor todas as coisas. O zagueiro Mauro, que era do Vasco, tinha sido recauchutado de um joelho podre e trazido a preço de banana do Botafogo, e por isso o homenzarrão tinha gritado Mauro, o primeiro bonde recuperado.

Janvier riu. Um monte de coisas a gente só entende com o tempo. Ele lembrou da mulher da varanda. Da carreira como jornalista esportivo. O amor pelo samba. Tossiu. A friagem de outubro pegou ele de jeito. Fechou o camisolão, enfiou o gorro mais pra dentro. Tirou a caneta do bolso e escreveu no caderninho um refrãozinho qualquer. Queria um bordão pra chegar chegando na liga amadora. Anotou Bonde do Swing, nas não gostou muito da ideia.

Janvier ergueu a mão direita, deformada, com três dedos e dois mini dedos. Deu uns toc-tocs no banco, raspou o sapato no saibro. Saibro era saibro em qualquer lugar. O som da terra é o mesmo, França ou Brasil. Tinha vindo Januário por causa da música do Chico. Porque tinha essa história de que a mãe o tinha colocado na janela quando nasceu, e a rua veio homenagear a criança. Parto em casa, aquela proximidade de vila, o córrego alto cheirando mal. Januário na janela, nascido no último dia de outubro, e que depois fez do futebol e da locução a sua breve passada na terra, esse terrão de suor, sangue e putaria.

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