O horror diante de um livro

O horror diante de um livro, que está pra mim como um terrível cansaço pra começar e ler qualquer coisa. Essa é a minha situação atual, que é estranha não por ser grave, mas por ser ao mesmo tempo grave e cativante. Cativante não é super a palavra, mas serve. Então eu tenho observado esse horror com a minha costumeira calma. Calma que não é muito verdadeira, mais uma habilidade adquirida diante do desespero. Escrever então nem se fala, esse horror ao quadrado. Claro que não é horror, eu sou hiperbólico, mas pra aqui fica sendo. Eu tenho esse texto do mestrado em Escrita Criativa pra entregar no verão, que deve ser feito em paralelo à sensação de horror. Isso causa o problema, o paradoxo, de algo a ser resolvido por meio de ferramentas que machucam as mãos — e ah se fossem apenas as mãos. E eu consigo identificar a origem de tudo isso, conheço muito bem a minha biografia (estudei ela uns anos atrás como quem estuda o intestino de um sapo), mas esse não é o foco.  O principal é que encontrei alguns caminhos possíveis. Keith Johnstone me salvou de alguma maneira. Que é um cara que o pessoal do teatro conhece, do improviso. Eu não sou do teatro, mas sou platônico. Da expressão, da graça etc. E eu tenho a coisa dos desenhos, dos cartuns, que ficaram ali no bolso do colete como se dizia. O trabalho então mistura um pouco dos dois. A real é que meu cérebro pediu arrego. Provavelmente por ter sido usado errado. Ou não? Talvez seja só uma fase, mas desisti de fazer qualquer coisa que coloque meu cerebrozinho em modo de tortura medieval. Um romance, uma novela, tem muita dessa dedicação que eu não tenho. Talvez eu tenha um dia, quando conseguir ressignificar meus processos de trabalho. Então tenho lido Johnstone e revirado meus papeis malucos cheios de caras esquisitas. O produto vai ser mais ou menos o encontro disso, já que não há muita ordem. Foi uma decisão que parece acertada, pelo menos. Até ontem não. Cativante porque é meio engraçado chegar ao fundo de um poço. É até que silencioso, fresco, não faz tanto calor. Você se observa, porque não há muito o que fazer. Tudo que falam é verdadeiro, os clichês. Você pode morrer, acontece, mas a sensação de que existe a saída do estudo, da análise e da recuperação, é uma sensação bastante prazerosa. Tenho morado mais ou menos nesse espaço. Não era nem sobre isso que eu queria falar, mas pelo menos meu cérebro está bem relaxado diante dessas flanadas despreocupadas. Abri o arquivo querendo falar sobre o desprezo que passei a sentir pela Ironia, que hoje atravessa tudo, e me atravessou, então é um pouco de desprezo por mim mesmo. A Ironia que é diferente do Humor, embora parentes. Lembro dos meus primeiros risos, talvez com Asterix — o riso sobre um texto bem elaborado. Olho ao redor e tudo é uma Ironia pesadíssima. Mas tudo bem também, é o que é. E “tudo” é uma palavra que eu poderia facilmente parar de usar já que não acredito nela. Essa decepção me deixou mais sério apenas, e isso pode ser bom. Não li David Foster Wallace, mas a sua biografia me cativa. Porque é claro que o cérebro dele também pediu arrego (e o fato dele ter deixado um monte de livros antes não faz a menor diferença, porque um cérebro pede arrego de jeitos e modos diferentes, o arrego é o mesmo). O que eu gosto é da descoberta dele quando diz “você vai parar de se preocupar com o que os outros pensam de você quando se der conta de quão poucas vezes isso acontece”. O blog, até ontem, começou nesse espírito. Com pouco discurso defensivo, aquele tipo onde cada reflexão precisa vir armada contra todos os pontilhões dos argumentos contraditórios. Não é bem por aí que eu quero caminhar. Algumas pessoas acham que eu tenho uma aura meio de mistério, e eu acho isso bastante engraçado. A imagem externa da gente. Embora eu entenda, porque a vagueza e as reticências (o pai da Fleabag), junto da intempestividade inflamada do palhaço, não contribuem pra nos colocar em uma situação de controle e segurança onde: eu sei quem aquele cara é. Eu não poderia me importar menos, mas claro que a gente se importa, ou não estaríamos vivendo juntos.

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